Mãe sobre morte de João Pedro: se fosse na Zona Sul, não entrariam atirando

A professora Rafaela Coutinho criticou a demora nas investigações que apuram o responsável pela morte do filho, de 14 anos

atualizado 14/06/2020 8:45

jovem de 14 anos assassinado pela policia no Rio de JaneiroArquivo Pessoal

Rafaela Coutinho Matos, de 36 anos, mãe de João Pedro Matos Pinto, morto aos 14 anos, em casa, durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, afirmou que o filho foi vítima de racismo. Para a professora, os policiais acham que “quem mora  a favela não pode ter uma casa boa. Se tem, é bandido”. As informações são do jornal Extra.

“Se fosse na Zona Sul, eles não entrariam numa casa de família atirando. Há um preconceito em se concluir que quem mora na favela não é gente de boa índole. Meu filho era um jovem negro e estava numa casa bonita dentro de uma favela. Acho que isso influenciou, sim, na hora de tomar a decisão de atirar”, lamentou Rafaela.

O crime completa um mês nesta semana e as investigações ainda estão em curso. A professora, que não estava em casa quando a polícia atirou no filho, disse que “não consegue entender” o que se passa “na cabeça desses policiais”: “Atirar em uma criança inocente. É muito desprezo pela vida“.

No processo de luto, Rafaela desabafou que não sabe como vai seguir em frente sem João Pedro e que a casa onde moram, no Complexo do Salgueiro, remete ao filho a todo momento. A família gostaria de mudar de endereço, mas não tem dinheiro.

“Essas quatro semanas foram muito difíceis. A saudade só aumentou. Quando eu olho para as coisas que ele gostava de comer, lembro das brincadeiras que ele gostava de fazer… É uma dor que não desejo para ninguém. A casa onde nós moramos me lembra dele o tempo todo. Eu gostaria muito de poder sair daqui, minha vontade é essa, mas hoje não temos dinheiro”, explicou.

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Rafaela contou que João Pedro fazia parte do grupo de risco na pandemia do novo coronavírus porque tinha bronquite. Por isso ele ficava em casa. De acordo com ela, quando as crianças ouviram os helicópteros, ligaram para os responsáveis e perguntaram o que deveriam fazer.

“A tia do João Pedro disse que ‘se eles baterem, abre a porta, deixa entrar. Não tem problema nenhum, vocês estão dentro de casa’. Nós achávamos que os policiais iriam protegê-los”, lamentou.

A professora e seus familiares agora esperam por um desfecho no inquérito que apura o responsável por matar João Pedro.

“Queremos que haja justiça e sabemos que a investigação não é um processo rápido. Mas estamos confiantes que a verdade vai prevalecer. Por mais que os policiais tentem esconder e mentir, a verdade vai prevalecer”.

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