Fernando Holiday faz mea culpa sobre críticas ao movimento negro

Vereador por São Paulo analisa omissão da direita no debate com a comunidade negra, mas se contrapõe a "viés revolucionário da esquerda"

atualizado 11/06/2020 11:43

fernando-holiday - vereador por São PauloFotos: Afonso Braga

As posições do vereador por São Paulo Fernando Holiday (Patriota) estão longe de ser majoritárias na comunidade negra: ele, que se define como conservador e integra o Movimento Brasil Livre (MBL), é contra cotas raciais, por exemplo, contesta a figura de Zumbi dos Palmares como símbolo da luta antirracismo e o feriado do Dia da Consciência Negra.

Em conversa com o Metrópoles, contudo, ele garantiu que suas divergências não significam que não reconheça a importância do movimento negro e rechaçou que posicionamentos como os do presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, sejam tomados como representativos de toda a direita.

Para ele, é preocupante que a fundação esteja sob o comando de Camargo, que, na semana passada, classificou o movimento negro como “escória maldita”. “O presidente da fundação permanece lá porque representa o que pensa o governo. E uma instituição que é responsável pela promoção de políticas públicas está mais preocupada em fazer selos para dizer que determinadas pessoas não são racistas. Eles nem sequer se pronunciam em casos de racismo grave”, disparou.

“A Fundação Palmares hoje não está fazendo absolutamente nada, não é nada construtiva. Gestão existe para polemizar.”

E a postura negacionista fica ainda mais grave, na opinião dele, justamente por ter endosso do Executivo federal. “Sempre tive a impressão de que as pessoas que negavam o racismo não tinham coragem de fazer isso publicamente porque é absurdo, mas hoje se torna preocupante, porque o discurso vem de todo o governo federal”, avalia.

Entretanto, nem toda a direita, segundo alega, compactua com o posicionamento: “Por estarem no poder, pode ser que historicamente essa seja confundida como uma posição unânime da direita. Já critiquei o movimento negro em diversas ocasiões, mas não tem como você negar a importância do movimento negro e negar, por exemplo, que as cotas, por mais que eu tenha críticas, ainda assim são uma tentativa de se combater um mal enraizado no nosso país. Ele [Camargo] não reconhece os esforços do movimento negro e não faz nada.”

Sob risco de deixar prevalecer posicionamentos radicais como o de Camargo, que nem mesmo admite a existência de racismo, Holiday propõe que esquerda e direita tenham disposição em discutir ativamente os problemas estruturais e sistêmicos que a população negra enfrenta no país. “A esquerda se fechou muito e a direita não discutiu esse tema. Precisamos de um debate mais profundo, com base em estudos.”

“Não existe muito segredo, a não ser o diálogo. Eu, por exemplo, sou considerado um ‘capitão do mato’ por ser contra cotas. Foi o caso do Ciro Gomes (ex-governador do Ceará, condenado pela Justiça de São Paulo a indenizar Holiday por tê-lo chamado de capitão do mato): nunca procurou entender as minhas ideias, teve acesso a trechos polêmicos e tirou conclusões racistas, como se eu, por ser negro, não tivesse direito a ter uma opinião que não se encaixa nas posições majoritárias”, sustentou.

Sobre a polêmica envolvendo o dia da Consciência Negra (20 de novembro), por exemplo, ele declarou não ser contra a existência de uma data comemorativa, mas que queria, sim, que ela fosse “historicamente mais clara”. “Preferia que a gente transferisse para o dia da morte do [jornalista e líder abolucionista] Luiz Gama (24 de agosto), por exemplo, que libertou mais de 600 escravos.”

Defendendo que o debate se dê em fóruns como a universidade pública, ele critica o Congresso – “Decaiu absurdamente em qualidade” – e diz que as redes sociais pioram o quadro: “Replica-se somente aquilo que é polêmico, você só convive com quem concorda com você e, quando fura a bolha, é por causa de uma polêmica. Toda vez que vídeos meus viralizaram, nunca foi com meu embasamento”.

Holiday, que recentemente escreveu, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, que o movimento negro “falhou em (sic) se render completamente à esquerda”, admite que a direita tem culpa nesse processo. “Não se propôs muito a esse debate, assim como não fez isso com o público LGBT. Faltou discutir, mesmo que isso não significasse uma aproximação com esses movimentos.”

A tese dele, contudo, é que é difícil para a direita competir com a linha de atuação do movimento de esquerda, de viés “revolucionário”, como ele definiu. “Mas tenho a impressão de que não teria como a direita se aproximar, porque hoje o movimento negro é essencialmente revolucionário e defende teses marxistas”, alega.

“Os negros conservadores, como o Luiz Gama, acabaram sendo deixados de lado. Eles defendiam a superação do racismo como um processo mais lento e transformador, que não é tão atrativo quanto o caráter revolucionário, que surgiu no Brasil não com a ideia de buscar uma igualdade, mas com uma supremacia negra”, critica.

Para o vereador, esse tipo de medida pode, na verdade, agravar problemas, porque pressupõe a superação imediata de questões seculares. “É só através de uma mudança cultural, com educação nas escolas, com debate público, sempre com a concepção de que o racismo está presente e mata, que vamos evoluir.”

“Acho que o movimento negro como é hoje acaba muitas vezes reforçando estereótipos e ajudando na perpetuação do racismo; o discurso é distante da realidade, angariar apoio de pessoas brancas é necessário. O modelo ideal, para mim, é aquele liderado pelo Martin Luther King, que foi um processo de anos e é um modelo conservador.”

Movimento nos Estados Unidos

Nessa linha, Holiday condena a violência registrada em alguns protestos nos Estados Unidos após a morte do ex-segurança negro George Floyd. “Primeiro, que grande parte dos processos estão acontecendo em bairros negros, e os mais prejudicados são pessoas negras. Estão destruindo outras vidas negras, e foram eles que disseram que vidas negras importam.”

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Protestos contra Bolsonaro 

Uma funcionária do gabinete de Fernando Holiday foi verbalmente agredida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nessa quarta-feira (10/06). Cris Bernart questionou o presidente – em quem diz ter votado – a respeito do número de mortes por Covid-10. Como resposta, ouviu um sonoro “sai daqui”, e foi expulsa do Palácio da Alvorada.

Em conversa com o Metrópoles, Holiday disse que apoia a atitude da assessora, mas afirmou que irá descontar o dia do salário dela, já que ela estava em Brasília, não em São Paulo.

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