Para afastar impeachment, Bolsonaro mais que triplica encontros com Centrão

Relação com aliados também aumentou. Outro objetivo é formar uma base estável para aprovar projetos de interesse do governo no Congresso

atualizado 28/05/2020 12:30

Foto de jair Bolsonaro, com imagens sobrepostas deleIgo Estrela/Metrópoles

O PSL era o único partido que integrava formalmente a base de apoio do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) no Congresso. Foi por meio da sigla que o atual mandatário se elegeu presidente. No entanto, após uma série de crises, Bolsonaro se desfiliou e está sem legenda desde então. Seus apoios, que já eram reduzidos, tornaram-se ainda menores ao mesmo tempo que os pedidos de impeachment foram aumentando.

Dessa forma, o presidente busca apoio do chamado Centrão – bloco informal de partidos que conta com aproximadamente 200 parlamentares – para escapar de um eventual processo de afastamento. Como parte dessa estratégia, Bolsonaro mais que triplicou os encontros com parlamentares do bloco e nomeou filiados em cargos de relevo do governo. É o que mostra um levantamento feito pelo Metrópoles com base nos compromissos divulgados na agenda presidencial entre 1º de janeiro e 22 de maio deste ano e nas nomeações divulgadas no Diário Oficial da União (DOU).

Desde o início da pandemia, o presidente realizou 47 encontros privados ou coletivos com parlamentares do grupo no Palácio do Planalto. Em janeiro e fevereiro, antes de dar início à estratégia, o presidente encontrou-se apenas 13 vezes com esses parlamentares.

No levantamento, não foram incluídas reuniões de Bolsonaro com líderes do governo no Congresso ou com o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) – cotado para o Ministério da Saúde.

O Centrão reúne parlamentares de legendas de centro e centro-direita. Entre os partidos desse bloco, estão PP, PL, Republicanos, Solidariedade e PTB. Siglas como PSD, MDB e DEM não se consideram parte do grupo, mas em negociações estratégicas costumam estar alinhadas, bem como legendas menores, como PROS, PSC, Avante e Patriota.

No primeiro bimestre, Bolsonaro priorizou encontros com o PSC, antiga sigla do seu filho Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro. Foram cinco reuniões privadas ou coletivas no período. Em seguida, aparecem o PSD (3) e Republicanos (2). De março até a última semana, o PSD foi a sigla que mais teve encontros com o presidente: foram 20 no total. Na sequência, aparecem o PP (6), PSC, MDB e DEM (5), além do PL (3). Veja abaixo:

Fonte: Palácio do Planalto

A aproximação do presidente com o Centrão também tem o objetivo de formar uma base estável para aprovar projetos de interesse do governo, além de barrar eventuais denúncias no Congresso. Para impedir um processo de impeachment, são necessários 171 votos contrários.

Nomeações ligadas ao Centrão

Mesmo com Bolsonaro negando que esteja negociando cargos, o Executivo federal entregou espaços importantes a partidos do Centrão, como PP, PL e Republicanos – esse último agora abriga os filhos Carlos e o senador Flávio Bolsonaro. Desde a campanha eleitoral, o presidente critica o que chama de “velha política”, que é justamente a troca de cargos por apoio. Esse mesmo bloco participou da base dos governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), trocando apoio por cargos.

Abaixo, veja as nomeações feitas até atualmente:

Fernando Leão: nomeado para dirigir o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).

O departamento é vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Regional (MDR) e atua na região Nordeste e no norte de Minas Gerais em ações relacionadas, por exemplo, à construção de açudes e reservatórios, perfuração de poços e irrigação.

Orçamento previsto para 2020: R$ 998,5 milhões.

Carlos da Silva Filho: nomeado para comandar a Superintendência de Trens Urbanos do Recife. A corporação faz parte da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e também é vinculado ao MDR.

Orçamento previsto para 2020: R$ 1,1 bilhão.

Tiago Pontes Queiroz: nomeado para chefiar a Secretaria Nacional de Mobilidade e Desenvolvimento Regional, órgão vinculado ao MDR.

Orçamento previsto para 2020: R$ 17,2 bilhões.

Garigham Amarante Pinto: nomeado para dirigir a Diretoria de Ações Educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A instituição é uma das autarquias do Ministério da Educação e responde pela execução de uma série de programas de alcance nacional, como o Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD), o Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Orçamento previsto para 2020: R$ 29,9 bilhões.

Carlos Marun e José Carlos Aleluia: nomeados para integrar o Conselho da Itaipu Binacional, hidrelétrica que fica na fronteira com Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, e Cidade del Leste, no Paraguai Itaipu.

Moro critica relação com Centrão

Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, exibida no último domingo (24/05), o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro criticou as alianças que o governo está fazendo com partidos e políticos do Centrão.

“Recentemente, vimos essas alianças, que são realizadas com políticos que não têm um histórico, assim, totalmente positivo dentro da história da administração pública. É certo que é preciso ter alianças no parlamento pra conseguir aprovar projetos. […] Veja, vamos colocar bem claro: eu não tenho nada contra os políticos. Mas, algumas alianças são realmente questionáveis” disse o ex-ministro.

Apesar de não fazer referência direta, a declaração de Moro tem ligação com o fato de, dois dias após o governo nomear Fernando Leão para ser diretor-geral do Dnocs, o deputado federal Sebastião Oliveira (PL-PE) ter sido alvo de mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Outline, que investiga desvios de recursos em obras de requalificação da BR-101, no Grande Recife.

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