Presa na alfândega, cloroquina doada por Trump tem futuro incerto no Brasil

Ministério da Saúde admite que "ainda não tem informações sobre sua distribuição por estado e outros usos"

atualizado 04/06/2020 8:16

Myke Sena/Esp. Metrópoles

Quatro dias após receber 2 milhões de doses de hidroxicloroquina dos Estado Unidos, o governo brasileiro ainda não sabe qual destinação dará ao medicamento. Atualmente, a carga — que chegou ao Brasil no último domingo (31/05) —  está passando por “desembaraço aduaneiro” na alfândega, segundo o Ministério da Saúde.

A pasta admite que “ainda não tem informações sobre sua distribuição por estado e outros usos”. Mesmo assim, o governo brasileiro agradeceu a doação. “A medida é uma demonstração da solidariedade dos dois povos na luta contra o coronavírus”, ressalta, em nota.

A carga com o medicamento chegou no domingo, pelo aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Neste momento, segundo as autoridades sanitárias, estão sendo resolvidos os despachos legais aduaneiros para liberação da carga. O medicamento é recomendado pelo governo brasileiro contra a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

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Inicialmente, o Ministério da Saúde diz que seguirá os parâmetros do novo protocolo da droga. Ao comunicar a doação, a Casa Branca disse que o medicamento poderia ser usado como profilaxia em equipes de saúde.

Pesquisas

Apesar do uso controverso da droga, o Ministério da Saúde informou que tem colaborado na condução de pesquisas e de ensaios clínicos para estudarem a segurança e a eficácia da medicação.

“A pasta tem acompanhado seguimentos clínicos, por grandes grupos, de mais de 40 mil brasileiros que tiveram acesso a essas medicações com boas respostas ao tratamento. Novas evidências científicas são fundamentais para atravessar, de forma mais branda, a pandemia da covid-19”, defende.

O ministério afirma que fará um esforço de pesquisa conjunto entre Brasil e Estados Unidos que incluirá testes clínicos controlados randomizados, para avaliar a segurança e eficácia da droga, tanto para a profilaxia quanto para o tratamento precoce do vírus Sars-Cov-2.

O governo brasileiro afirmou que “segue acompanhando estudos realizados em todo o mundo e já conta com um banco de informações com mais de 200 protocolos de cloroquina e de hidroxicloroquina usados em países como os Estados Unidos, Turquia e Índia”.

A doação foi anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE). Segundo o Itamaraty, em breve, o país norte-americano, chefiado por Donald Trump, também enviará mil ventiladores ao Brasil.

“A HCQ [hidroxicloroquina] será usada como profilático para ajudar a defender enfermeiros, médicos e profissionais de saúde do Brasil contra o vírus. Ela também será utilizada no tratamento de brasileiros infectados”, informou o ministro das Relações Exteriores, chanceler Ernesto Araújo, ao anunciar o recebimento do donativo.

Retomada de estudos

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou, nesta quarta-feira (03/06), que a entidade vai retomar os estudos com cloroquina e hidroxicloroquina contra o coronavírus. Tedros Adhanim Ghebreyesus explicou que o Comitê de Segurança e Monitoramento do ensaio clínico Solidaridade revisou os dados e decidiu manter o protocolo original do estudo.

trabalho havia sido suspenso na semana passada depois que os resultados de uma pesquisa com 96 mil pacientes foram publicados na revista científica The Lancet. Segundo os pesquisadores, o medicamento não tinha eficácia contra a Covid-19 e aumentava o risco de arritmia cardíaca e morte. Porém, nesta segunda (02/06), a publicação científica anunciou em editorial que os resultados passariam por auditoria e que os editores estariam “preocupados”.

Polêmica 

Na última semana, o Metrópoles mostrou que, nos bastidores, o governo admite que novo protocolo da cloroquina “fracassou”. Após ampliar o uso da droga no tratamento da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, entidades científicas rechaçaram a sua eficácia. Contudo, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) apoia a utilização.

A ampliação do uso do medicamento para casos leves da doença ocorreu em 20 de maio. Bolsonaro defende a droga como uma alternativa contra a infecção. A mudança neste protocolo resultou na demissão de dois titulares do Ministério da Saúde: o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta e o oncologista Nelson Teich. Atualmente, a pasta é comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello.

Ressalva em protocolo

Apesar de o Ministério da Saúde ter mudado a recomendação, o governo fez uma ressalva técnica no documento admitindo que, na prática, a droga não tem eficácia comprovada.

O protocolo prevê o uso do medicamento para pacientes com sintomas leves, bem como crianças, gestantes e mulheres que tiveram filhos recentemente.

Entre as fontes de embasamento, o documento cita o Conselho Federal de Medicina (CFM), estudos próprios do Ministério da Saúde, a Agência Europeia de Medicina, reportagens publicadas em sites, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o Hospital Israelita Albert Einstein e artigos científicos.

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