“Profeta do caos”, pastor lidera projeto contra assédio sexual na igreja

Religioso foi apelidado pejorativamente por líderes que repudiam a forma como ele incentiva denúncias sobre "submundo das igrejas"

atualizado 09/05/2020 11:13

Pastor Anderson SilvaDiego Sulivan/ Arquivo Pessoal

Em 2018, 66 mil pessoas foram vítimas de estupro no Brasil, segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro do ano passado. Há ambientes nos quais, em tese, as vítimas deveriam se sentir seguras, mas os assediadores não têm limites e agem em diversos lugares. A igreja é um deles. Com o objetivo de ajudar essas pessoas que são atacadas por predadores sexuais dentro de templos religiosos, surgiu o projeto Nossas Histórias Curam.

A rede de apoio é liderada pelo pastor Anderson Silva, de Brasília, e atua no enfrentamento de abusos cometidos contra mulheres e crianças sob aval da religião. Segundo Anderson, pastores de todo o país o criticam e já o apelidaram de “profeta do caos” e “justiceiro de Jesus”, mas seu propósito de vida o faz seguir em frente com os 25 projetos sociais liderados por ele. “O Nossas Histórias Curam nasceu com o meu sentimento de indignação de que a religião se torna perpetuadora desse tipo de violência”, destaca.

“Cada projeto desses é consequência de um tipo de indignação. Eu tenho que fazer algo com essa ira, porque, se eu não fizer, ela é contrária a mim, ela me destrói. Eu canalizo o meu sentimento de ira e de indignação com a injustiça criando um projeto capaz de amenizar essa realidade”, explica o pastor.

Segundo Anderson, há um “submundo nas igrejas”, em que os casos de assédio ocorridos são amenizados e restruturados, com narrativas que fazem a vítima ter medo de denunciar o autor do crime.

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“As vítimas têm medo do poder que o pastor ou sacerdote pode ter e teme acabar com o casamento do agressor ou com a igreja”, detalha. Ao tomar conhecimento do que acontece e dos crimes que são omitidos por parte da própria congregação, o líder espiritual tomou a atitude de criar um ambiente que acolhesse a vítima da melhor forma.

“Os nossos principais objetivos são ajudar quem sofre e denunciar o causador do sofrimento, o autor do crime”, conta o pastor. O religioso explica que nem sempre a vítima quer fazer denúncia formal, mas o projeto é um lugar onde elas podem se sentir amparadas da mesma forma, mesmo que não haja a vontade de enfrentamento legal.

A rede oferece tratamento terapêutico, pontua o religioso, o que ajuda as vítimas a lidarem com a dor de modo humanizado. “Somos mais de 40 advogados e 40 psicólogos voluntários em nível nacional”, ressalta.

A psicóloga e pesquisadora do Grupo Saúde Mental e Gênero da Universidade de Brasília (UnB) Maísa Guimarães defende a importância e a complexidade de atender essas vítimas de assédio sexual: “É um atendimento amplo (…). Há o tratamento psicológico, o acolhimento dessa vítima para que ela possa cuidar das suas dores, entender o que aconteceu, mostrar que não é culpa dela, que não é uma questão de responsabilidade da pessoa, nomear essa situação enquanto uma violação e só então pensar em recursos de enfrentamento”.

“É preciso entender que é uma situação muito grave, que vai repercutir de formas diversas, emocional, psiquicamente, e que essas emoções podem durar anos, principalmente se não forem cuidadas, não forem tratadas”, enfatiza a psicóloga.

Segundo Maísa Guimarães, quando os assédios ocorrem dentro do ambiente religioso, coloca-se, “a priori, a relação hierárquica de poder”. “Se para os seguidores de determinada religião a ação da pessoa que ocupa um lugar de poder dentro do determinado âmbito (um padre, um pastor ou um sacerdote, por exemplo) é tida como um representante de Deus, uma divindade…, surge uma grande dificuldade para a vítima da violência sexual perceber aquilo como um crime ou até assimilar o ato como violentador.”

Casos reais

Em São Paulo, um relato que inspira o projeto e tantas outras histórias envolve uma mulher de 25 anos e o pastor da igreja a qual ela costumava frequentar. De 2007, quando tinha apenas 13 anos, a 2017, foi abusada sexualmente, e só criou forças para denunciá-lo quando soube que outras mulheres também haviam sido vítimas.

Mesmo depois de negar as acusações e jurar não ter tocado no corpo da jovem, o agressor recebeu a sentença em primeira instância de 19 anos, 5 meses e 3 dias de reclusão. Cabe recurso.

As identidades – tanto da mulher quanto do pastor – foram preservadas a pedido da vítima, que tem medo de ser coagida pelo acusado.

Em Goiânia, o caso de Gabriella Palhano, médica veterinária que acusa o pastor Davi Passamani de assédio sexual, com provas de troca de mensagens e chamadas de vídeo, foi arquivado. O advogado do religioso, Wilson Carlos de Almeida, se pronunciou sobre o caso em publicação no Instagram: “Tratamos o assunto com muita serenidade, tranquilidade e optamos por aguardar toda a investigação policial e toda a apreciação por parte das autoridades competentes”.

“O Ministério Público ao analisar as provas levadas pela senhorita Gabriella Palhano entendeu que não houve crime algum, assim como a autoridade policial havia feito dias atrás. Dessa forma, a conduta do pastor Davi Passamani não guarda relação com crime algum”, continuou o advogado da defesa.

A advogada de Gabriella, Taisa Steter, também se posicionou, na mesma rede social. Ela contou não ter sido notificada judicialmente sobre o arquivamento do processo.

“O Ministério Público solicitou o arquivamento por ausência de justa causa. A ausência da justa causa não é a ausência da atitude delituosa, da conduta moralmente reprovável que aconteceu no caso da Gabriella. (…) o crime que aconteceu em relação ao investigado desse caso com a minha cliente não se amolda exatamente ao que está escrito no Código Penal. Nós temos um problema legislativo”, assinalou.

Porém, a vítima diz que ainda tem esperança de que a justiça seja feita também neste caso. “Existe a ação civil de reparação de danos, que nós já protocolamos, para esse caso continuar e existir então uma prestação jurisdicional satisfativa, porque a conduta desse líder religioso foi uma conduta moralmente reprovável”, frisa a defensora.

Na opinião de Taisa, Passamini se aproveitou do cargo de líder, de pastor, e extrapolou a confiabilidade entre ele e a médica veterinária. “Ele utilizou das artimanhas eclesiásticas de aconselhamento pastoral para então conseguir atacar a vítima e tentar satisfazer os seus intuitos e as suas intenções sexuais”, salientou a advogada de Gabriella.

“O nosso intuito com qualquer condenação que tiver no processo cível é reverter essa condenação para instituições que acolhem, que recebem e apoiam as vítimas de violência contra a sua dignidade sexual. O nosso objetivo com o processo é reparar a abusada e tentar salvar vida de mulheres que sofrem essa violência”, ressalta Taisa.

Futuro de esperança

O próximo passo do projeto Nossas Histórias Curam será a abertura de um escritório, que contará com a atuação de uma psicóloga responsável por redistribuir os pedidos por terapia de todo o país, programada para a próxima semana. O atendimento poderá ser feito presencialmente ou por meio de teleconferência, conforme explica o pastor Anderson Silva.

Outra meta é poder ter uma rede “fixa e firme de voluntários para o tratamento terapêutico e para as denúncias, além de levar a discussão a nível legislativo”, já que, de acordo com o religioso, “há um problema na legislação vigente para o crime de assédio sexual”. Nos últimos dois meses, o projeto recebeu mais de 50 denúncias e há cerca de 15 casos já em segredo de justiça.

Serviço:

Nossas Histórias Curam (denúncia)
[email protected]

Projeto Cure (terapia)
(61) 98484-5366

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