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Perigo de Gol: ainda é Copa do Mundo

Em tempos de Mundial, cada cidadão em terras alienígenas é um embaixador de sua nação e faz questão de defender os valores de sua cultura

Matthias Hangst/Getty Images Matthias Hangst/Getty Images

atualizado 15/07/2018 19:28

Neste momento, enquanto escrevo este relato, estou em Moscou, em plena Praça Vermelha, literalmente na fila aguardando minha vez para visitar o Mausoléu de Lênin.

À minha frente, um grupo de brasileiros exibindo orgulhosamente a camisa da Seleção e o mesmo fenômeno se estende às outras seleções: mexicanos, japoneses, croatas, peruanos, argentinos, todos ainda estão por aqui.

Não importa se sua seleção se apresentou bem ou mal, se fez história como a Bélgica ou se frustrou o torcedor como a Argentina.

Em tempos de Copa do Mundo, cada cidadão em terras alienígenas é um embaixador de sua própria nação e faz questão absoluta de defender os valores de sua cultura ostentando suas insígnias e prerrogativas exclusivas: a camisa e, muitas vezes, a bandeira amarrada ao pescoço.

O uso obstinado da camiseta da seleção, qualquer que seja, dia após dia, contando muitas vezes apenas com os sobretaxados serviços de lavanderia dos hotéis, deve ser sempre visto como um ato de heroísmo em defesa dos valores da pátria. Ainda mais que o tecido das camisas de futebol em todo o mundo é conhecido por potencializar certas indesejáveis emanações.

Ontem, estive aqui nessa mesma fila, mas não entrei. O acesso ao Mausoléu é restrito. Acontece em alguns dias da semana a partir das 10h. Porém, pontualmente às 13h, um dos guardas avisa a todos na fila que ainda não entraram que voltem outro dia, não importando o tempo que permaneceram aguardando sua vez.

Minha vez chegou e precisei guardar o celular para adentrar na Necrópole da Muralha. Além de Lênin, jazem no local outros líderes do Partido como Stálin e Brejnev, líderes soviéticos e personalidades. Uma pena todas as placas estarem grafadas em cirílico. Não foi possível identificar a grande maioria deles.

Por um momento, saí da atmosfera luxuriante da Praça Vermelha colorida com os matizes de camisas de múltiplas seleções e mergulhei no silêncio da fria e escura câmera onde repousa o antigo líder revolucionário. É quase impossível manter total sanidade diante da múmia de qualquer homem do povo, agora calculem o que eu não filosofei a dois passos da antiga matéria que compunha o camarada Vladmir Ilich.

Felizmente, os guardas (tenho certeza que era a fina flor da KGB) me expulsaram da câmara e, no minuto seguinte, quando emergi novamente na Praça Vermelha, ainda bastante impactado pela cena no interior da cripta, vejo uma grande aglomeração na frente da Catedral. Era o Will Smith.

Nunca imaginei que veria pessoalmente, no mesmo dia, o Lênin e o Will Smith.

O maluco no pedaço movimentou a paisagem, mas passou como um raio. Bem depressa, os seguranças arrancaram o homem de lá. A praça fervia tanto que não se sentiu a falta de Mr. Smith. Nem por um segundo. Muitos nem viram ele lá.

Não há lamento permanente, quando é Copa do Mundo. Vamos aproveitar enquanto ainda é.

Daqui a pouco não será mais Copa, mas as imagens que ficarão desse mundial ecoarão pela eternidade.