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Paulo Bruscky e a poética de tirar uma xerox, passar um fax

A retrospectiva PaLarva desencadeia um panorama dos variados interesses da obra deste multirrealizador

Bernardo Scartezini/ Especial para o Metrópoles Bernardo Scartezini/ Especial para o Metrópoles

atualizado 21/09/2018 19:28

Cartas e envelopes, e-mails, fotocopiadoras e máquinas de fax. Vídeos, outdoors e anúncios classificados de jornal. Nenhum meio de comunicação é estranho para Paulo Bruscky. E todos são legítimos para o artista se expressar. Até mesmo os aparelhos de eletrocardiograma podem funcionar a favor da veia poética.

Entrando na última semana de sua temporada brasiliense, a retrospectiva PaLarva desencadeia um panorama dos variados interesses da obra deste multirrealizador multimeios pernambucano ao longo de cinco décadas de atividades. Ocupando a galeria principal da Caixa Cultural até 30 de setembro, a mostra também pode ser entendida como um momento de cumplicidade e afetividade. Yuri, o filho do artista, assina a curadoria. Raíza, a filha, cuida da expografia.

Pelas paredes da grande galeria, e dali se esparramando por mesas e vitrines, se intercalam objetos, papéis e fotografias tentando dar conta dessa carreira que, em larga medida, se fez no calor do instante e aconteceu tendo o próprio do corpo do artista como meio.

Porém, aqui agora, nos limites físicos deste espaço, misturando os tempos mais pretéritos de antigas performances com trabalhos realizados em anos recentes, percebe-se tanto a permanência e a nitidez de um pensamento quanto a validade e a urgência de certos temas recorrentes em terras brasileiras.

Podem ser os ares do Planalto Central, as proximidades das eleições, este cheiro de pólvora cada vez mais forte desde os protestos de 2013. Por tudo isso, o tempo da obra de Bruscky se confunde um bocado quando seus papeis se misturam.

O título de eleitor, cancelado, foi carimbado: 1976. O roteiro de vídeo, embargado, voltou riscado da Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal: 1977. A fotografia do arquivo do Departamento de Ordem Política e Social só pôde ser feita agora em 2015. Mas estes mesmos dias em que é permitido o acesso aos porões do passado também são de desemprego massivo (Brasil: não há vagas, 2016) e estado mínimo (Vende-se ou aluga-se, 2017).

Uma das ideias de Bruscky para esta retrospectiva foi justamente poder apresentar aqui na capital federal algumas obras que, em sua época, não passaram pelo crivo da censura da ditadura militar (1964-1985). O interesse político sendo caro ao realizador, mesmo quando não tornado explícito em temáticas e palavras. Afinal, sua permanente busca por novas tecnologias também pode ser entendida como uma atitude política.

Paulo Bruscky foi um dos pioneiros da chamada mail art – arte postal ou arte correio – no Brasil. Após ter sido criada meio que por acaso por visionários como Marcel Duchamp e Guillaume Apollinaire, essa forma de expressão se tornou mui cara aos artistas do grupo Fluxus nos anos 1960, permitindo uma interação direta entre os autores, à margem do mercado da arte e exposta a todo tipo de acaso que uma correspondência pode encontrar em seu trajeto.

A mail art prosperou na América Latina em tempo de ditaduras nacionais. Abria-se com ela mais um campo para se tentar escapar da repressão militar, que, vale lembrar, entendia a posse de um mimeógrafo como ato de subversão e fazia batidas em ateliês atrás de prensas de gravação.

“A arte retoma suas principais funções: a informação, o protesto e a denúncia”, escreveu Paulo Bruscky em seu manifesto Arte Correio e a Grande Rede: Hoje a Arte é este Comunicado (1976). “Os envelopes/postais/telegramas/selos/faxes/cartas etc são trabalhados/executados com colagens, desenhos, ideias, textos, xerox, propostas, carimbos, música visual, poesia sonora etc e enviados ao receptor ou receptores. Depois de passar por diversas pessoas/países, retornam para o transmissor, tornando-se um trabalho bumerangue. O correio é usado como veículo, como meio e como fim, fazendo parte/sendo a própria obra.”

O trabalho de mail art iniciado nos anos 1960, num primeiro momento em parceria com o artista Ypiranga Filho, não foi deixado de lado por Paulo Bruscky desde então. Com o tempo e os avanços da tecnologia, ele encontrou outras formas de comunicação, de outdoors a e-mails.

E uma pesquisa iniciada em paralelo levou Bruscky aos anúncios classificados. Arte classificada, como ele denomina essa vertente de sua produção. Desde os anos 1970, vem publicando em jornais brasileiros – e também de Colômbia, Estados Unidos, França, Alemanha, Suécia e Espanha.

A arte classificada também surgiu como estratégia para escapar dos radares da ditadura, que era implacável com as notícias dos jornais. Porém, naquele espaço considerado menos nobre tanto por jornalistas quanto por censores, e por isso menos digno da atenção deles, Bruscky publicava seus estilhaços poéticos.

A atitude de publicar um texto poético em meio aos classificados de um jornal de grande circulação pode ser entendida como uma intervenção no espaço público. No sentido de que o artista está a se intrometer onde não devia, está a surgir no inesperado, quebrando o discurso coletivo e lançando luz no que está à sua volta.

Como em uma performance. Para abrir PaLarva aqui em Brasília, no mês de agosto, Bruscky recebeu os visitantes num par de noites para promover algumas de suas ações coletivas. Para quem não esteve lá, restam os ecos. Boa parte da peças reunidas na mostra se referem a performances do artista ao longo da carreira. São registros em fotografia, em vídeo.

Alguns desses registros, no entanto, possuem impacto visual próprio. Como os trabalhos feitos por Bruscky em performances com aparelhos de fax. Fascinado por essa tecnologia que, já na virada dos anos 1980, estava a conciliar a telefonia com a técnica de impressão, o artista desenvolveu imagens igualmente híbridas que sugeriam colagens e buscavam uma insuspeitada pictorialidade.

Se a imagem é cara a Bruscky, a palavra é igualmente forte. A palavra se torna uma das chaves de todo este percurso de cinco décadas, atravessando as diferentes ferramentas que o interessam, unindo os diversos momentos de seu trabalho e articulando boa parte de sua comunicação – tanto visual quanto verbal.

Então, em Poema linguístico (2017), ele manchou de tinta sua língua e se pôs a lamber uma página. E ofereceu seus dotes com as palavras em Poesia: aceitamos encomenda (2016), potencializando a ausência gráfica das letrinhas na placa do boteco. Meio e mensagem, reinterpretados de uma forma que Marshall McLuhan jamais teria se atrevido.

“O trajeto é a minha obra”, definiu certa feita Paulo Bruscky.

Bernardo Scartezini/ Especial para o Metrópoles
Homenagem ao Fluxus (2001)