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O Concorrente faz hambúrguer honesto e sem grandes firulas

Casa aposta, com inteligência, na simplicidade e no bom serviço

Guilherme Lobão/Metrópoles Guilherme Lobão/Metrópoles

atualizado 21/09/2018 18:48

A bolha das hamburguerias ainda há de estourar. Previa uma ressaca desse modelo por agora, mas tudo indica que ainda renderá por mais algum tempo. Circulo um bocado por esses lugares para tentar consolidar, em breve aqui na coluna, um mapa das poucas casas que servem verdadeiramente boas receitas: carne de qualidade, de bom tempero, pão fofo e ingredientes de primeira. Convenhamos, toda modinha serve um prato cheio de mediocridade. Com a onda dos equivocadamente chamados burgers gourmet (ou artesanais), separar joio de trigo tem se mostrado uma tarefa complicada.

Já escrevi sobre algumas das melhores hamburguerias, como Parrilla Burger e Ricco Burger, e de outras mais problemáticas, caso do Cão Véio. Antes de chegar a um veredicto – ou melhor, um panorama do que vale investir dinheiro e arriscar ganhar calorias – faço uma pausa no caminho hoje para refletir um pouco sobre outra hamburgueria bacana: O Concorrente, na 409 Norte, entrequadra apelidada carinhosamente de Baixo Asa Norte.

Para o universo em que se insere, o nome da lanchonete parece bem apropriado. Afinal, concorrência não falta por aqui. Neste caso, o proprietário, Alexandre Sousa, o Geleia da rede de hamburguerias, coloca-se com certa empáfia e muita audácia como “o” concorrente dele próprio – e, de lambuja, a Hamburgueria do Francês, ali atrás.

A história do Geleia e de sua pulsão empreendedora beirando a megalomania é bem interessante. Sabia do Geleia, uma lanchonete do meu Gama, há tempos. No entanto, logo quando o primeiro food truck começou a circular em 2014 ou 2015 pelo Eixão Norte, não relacionei uma coisa com outra e acabei não experimentando os burgers à época, muito menos escrito sobre. O dono tentava me convencer a provar seu novo sanduíche – já não mais o mesmo que vendia no Gama. Ele acreditava que com meu aval seu food truck iria estourar.

Depois que finalmente havia provado o burger do Geleia, em 2017 apenas, o negócio já estava consolidado – e segue em franca expansão, agora com previsão de se instalar à beira do Lago Paranoá totalizando cinco lojas e três caminhões. Quando escrevi, à época em outro blog, reconheci que a marca não precisava do meu aval ou de mais ninguém na esteira para o sucesso. Contudo, o alertei: não deixe o padrão cair. Mas é o que vemos muito hoje na rede.

Guilherme Lobão/Metrópoles
Balcão de serviço de O Concorrente: cozinha aberta e chapa quente

 

O Concorrente, por ser um negócio único, embora com muitos pontos de contato com o Geleia, já consegue garantir uma qualidade melhor em serviço na grelha e na montagem dos sanduíches. A receita da maionese é a mesma, aveludada e bem temperada (embora falte um pouco mais de acidez) e as batatas rústicas com páprica e alecrim também se repetem no menu.

Dos ingredientes centrais, não gosto particularmente do pão australiano. Muito seco e quebradiço. O brioche não fica muito atrás, embora consiga entregar a face interior da fatia amanteigada, chamuscada e com a crocância necessária para um bom hambúrguer.

Novidade mesmo do Concorrente está no modelo de serviço. Adota o mesmo esquema do Ricco, do B de Burger, do Jerônimo, dentre outros: pedido no caixa e senha. Mas aqui é possível montar o próprio sanduíche. Basta escolher pão (brioche, australiano ou parmesão), o queijo (mussarela, prato ou gorgonzola), a cebola (caramelada, crocante, grelhada) e os extras (bacon, alface, picles e rúcula). O disco de hambúrguer de 180 gramas é o mesmo (R$ 39 o combo com fritas e bebida).

Eis um outro trunfo de O Concorrente: a receita do blend, produzida com carne de gado angus pelo mago churrasqueiro Tonico Lichtsztejn (Cowtainer), responsável por um molho bacana à base de cebola que integra o bem feito smash burger da casa (R$ 22).

Da cozinha aberta, pode-se ver o organizado trabalho da cozinha diante da grelha de chama aberta. O ponto da carne – caso você não invente de pedir sola de sapato – costuma vir corretinho: com todos os sulcos escorrendo cintilantes por entre as fibras rosáceas do hambúrguer.

Para além do trabalho de hamburgueria, há uma receita de cachorro-quente (R$ 20) que representa um bom esforço e nada além. Salsicha alemã de qualidade, pão esfarelento e uma confusão de molhos, farofa, bacon e queijo por cima. Há quem goste. Eu fico apenas saudoso dos bons tempos do Überdog ou prefiro pagar menos e traçar um Landi (405/406 Sul).

Outra sacada nascida a reboque da gourmetização do tal hambúrguer artesanal (como se a artesania não fosse inerente ao próprio serviço de alimentação em si), surge com o cardápio de bebidas. Acredito que tenha sido o Ricco o primeiro a servir por aqui refrigerantes naturais, sem adição de xaropes industrializados.

O Concorrente o faz bem a partir de suco de uva ou de tangerina (R$ 7). Há uma linha de chás gelados (R$ 9), pouco vistosos. Maior mérito tem as limonadas com frutas vermelhas mais manjericão, abacaxi e maracujá e a minha predileta: com suco de melão e capim-santo (R$ 9, cada uma). Dentre os milk-shakes não provei nada de que gostasse. Tudo muito doce em creme absolutamente espesso. A versão batizada de tres leches (em alusão à sobremesa mexicana) esculhamba-se toda com uma calda de amarena a roubar todo o sabor.

Para além da minha preguiça peculiar com as péssimas interpretações dessas clássicas bebidas leitosas de lanchonete americana, posso colocar tranquilamente esta hamburgueria como uma das mais bem cuidadas em termos de produto final. De fato, uma das que provavelmente sobreviverá a prenunciada ressaca desta modinha, numa seara de tão ferrenha concorrência.

O Concorrente
409 Norte, bloco B, loja 1. Tel: (61) 98417-2475. De terça a sábado, das 17h às 23h45. Domingo até 23h. Ambiente interno e externo. Wi-fi. Desde 2018