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Havia uma urgência de novidades no teatro brasiliense entre a virada dos anos 1970 e 1980. Era preciso ultrapassar as barreiras da censura na capital do poder e ao mesmo tempo do estigma de se realizar um teatro representativo. Tinham de sacudir o marasmo. A onda rock saía dos subsolos, da colina, invadia o tédio das superquadras.

Assim era o espírito de “O Último Rango”, peça-chave nesse sacolejo que Brasília precisava tomar. Concebida pelo mestre J. Pingo, agitador cultural e irmão do ator Paulo Cesar Pereio, tinha uma proposta anárquica para a execução do espetáculo: um musical com 32 participantes e três bandas tocando ritmos diversos.

No Galpãozinho, foram montadas mesas como se fossem um espaço-cozinha-bar. A plateia entrava, com canequinhas de cachação em mãos, e ocupava os lugares em mesas, poltronas, sofás e almofadas. Havia ali, bem perto, um caldeirão em cima de um fogão acesso. Os atores e músicos ajudavam a descascar os legumes. Era uma sopa que, depois, seria servida para os espectadores e moradores de rua da W3 Sul.

A ideia era de experiência. Atores-garçons subiam às mesas e recitavam textos, enquanto as bandas Liga Tripa, Blitz 64 e Aborto Elétrico, que se desdobrou em Capital Inicial e Legião Urbana, comandavam a fusão entre palavra e música, ocupando um balcão-palco.

A plateia era convidada a dançar e interagir com os grupos. Destruía-se completamente as relações entre espectadores e atuações. Muito rapidamente, tudo se misturava e o difícil era fazer as pessoas voltarem às mesas. Elas queriam interagir continuamente.

J. Pingo era o grão-mestre de cerimônias e dizia textos ácidos e críticos:

A música que traduz o sentimento trágico do nosso tempo é o rock"
J. Pingo

Consta que Renato Russo se empolgou muito com a performance e fez apresentação vibrante do Aborto Elétrico. Cantou “Heroína” e “Tenho Quase Vinte Dentes”

Na estreia, um dos atores resolve improvisar, pega um extintor de pó químico e lança sobre a plateia. Os bombeiros são chamados e tudo termina numa noitada do Bar Beirute.

 

J. Pingo, que tinha feito “Hair”, mexeu nas relações estanques entre teatro e outras linguagens. Uniu tudo numa sopa antropofágica e provocou a ira dos bem comportados, sobretudo a crítica oficial da cidade, que não entendia muito bem a explosão do palco tradicional.

Morto precocemente aos 65 anos, J. Pingo partiu construindo o sonho de fazer um centro cultural no Jardim Botânico. Um espaço alternativo para cultura fora do mercado no Distrito Federal. Chegou a fazer encontros de bandas de rock, hip-hop e oficinas para teatro. Queria montar um grupo cênico com jovens da região.

A militância era por uma cultura fora da redoma de mercado. J. Pingo tinha esse espírito irreverente e questionador, que fez “O Último Rango” entrar para a história do teatro inquieto do DF, aquele fugia do bem comportado palco italiano.

renato russoAborto elétricoteatro candangoteatro 061J. Pingo
 


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