Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Demissão de Moro é aviso: não há saída de emergência neste circo

No picadeiro Brasil, morrerão os que pagaram pelos bilhetes e os obrigados a assistir. E essa injustiça vai marcar a próxima eleição

atualizado 24/04/2020 10:27

Arte sobre possível saída de Sergio Moro do governo, fazendo referência ao Jânio QuadrosGui Prímola/Metrópoles

Agora há pouco, peguei o que tinha escrito e joguei no lixo.

Soube que, segundo a Folha, Sergio Moro teria pedido demissão. O Ciro Gomes dentro de mim diz pro Ciro Gomes dentro de você:

REPARE BEM,
precisamos verificar, porque é grave.
E eu não me importo se o Moro vai ser corretor de imóveis ou presidente da República, uma coisa ele não é mais – juiz. O que eu observo é que o Bolsonaro está ficando isolado dentro do isolamento. Cercado de militares que sabem muito bem cuidar de si mesmos, Bolsonaro segue alimentando o animal que vai morder a mão dele, arrancar seus braços, triturar seus ossos, em praça pública.

Lista das coisas que Bolsonaro não tem:

Apoio na Europa
Apoio na China
Apoio na Rússia
Apoio da OMS
Apoio dos seus ex-apoiadores
Apoio dos governadores
Apoio da Alcione
Apoio do Grêmio Esportivo Atlético Clube Cultural de São Miguel do Caparaó.

Apoios que Bolsonaro tem:

O governador de Minas, cujo nome me recuso a pesquisar
ROBERTO EU NÃO ACREDITO NISSO JEFFERSON.

Duas pessoas. Ambas sem qualquer relevância política, que precisam da xêpa dessa bagunça. E chegam atrasados, porque os militares ocupam mais cargos que em todos os governos do período da ditadura.

E Alcione, em sua live, mandou um salve para todo mundo, de Eduardo Paes a Roesana Sarney, passando por Chiquinho da Mangueira, Witzel e Ciro Gomes, já citado.
Menos pra Bolsonaro.
Pra Bolsonaro, teve o samba da Mangueira, que ela cantou na sequência, e que diz que não precisamos de um “Messias de arma na mão”.

As indiretas já são diretas no meio de sua cara, há muito tempo, presida.

Apenas uma pessoa muitíssimo ingênua pode negar o que está acontecendo no Planalto. Mas eu tenho uma cena, um exemplo pra explicar pra você.

Pense no Didi.
No Didi da década de 1970, em plena forma cearense.

Didi entra no circo. E com ele, uma criança, segurando um lança chamas, e vários palhaços espalham gasolina sobre a plateia.

Didi, o palhaço-mor, joga flores pra plateia, anuncia a mulher barbada, mas, nos bastidores, manda a mulher barbada ir limpar banheiro. Coitada da mulher barbada. Fez um esforço tão grande, ensaiou, e agora está sendo mandada pra fora do picadeiro, lugar de holofote e destaque.

A mulher barbada pega a vassoura e vai pro banheiro, e encontra, nos fundos do circo, outros palhaços, retirados da cena. Todos putíssimos com o Didi, o palhaço-mor, vaidoso, se tornou autoritário, traíra, safado.

Eles se juntam na roconha.
Fecham a bilheteria do circo, os portões, com todo mundo dentro.
E acendem um pavio, que vai até o picadeiro.

Mas a impressão que temos, dentro do circo, é que esse fogo vai pegar sozinho.
As crianças do palhaço encharcam a plateia, que gargalha no cheiro forte de gasolina, e a criança menor, Carluxa, acende o lança-chamas.

Pra piorar,
surge uma multidão de serpentes, no meio dessa caatinga. Serpentes que estão devorando o mundo.

Um dos palhaços, cansado da trairagem,
risca um fósforo, e ameaça jogar na plateia.

Congela a cena.

Qualquer analista vai dizer que não se brinca com fogo. Ou que, se o palhaço-mor estava mexendo com fogo, no fundo ele queria o incêndio.

Os analistas estão olhando pra cena congelada, tentando descobrir o que vai acontecer, mas no fundo, alimentam uma doce ilusão. De que alguém surgirá no meio desse circo, pedindo pros ânimos acalmarem, porque vamos sair vivos disso.

Não vamos.

O Brasil quis ver o circo pegar fogo.
Esqueceu que nós somos o circo.
E agora, estamos com um colapso político às portas,
um colapso institucional no Congresso e no STF,
um colapso social nas ruas,
e um colapso na rede pública de saúde.

Carlos, Eduardo e Flávio seguem, com o Gabinete do Ódio, Allan dos Santos e até o delirante Ernesto Araújo, jorrando material inflamável porque julgam que há uma saída de emergência.

Moro, sempre pusilânime e subserviente, se pediu demissão, informa pra qualquer bom entendor: não temos plano B. E as saídas de emergência estão fechadas.

Tanto estão, que Moro pode ter posto próprio paraquedas, e está pulando. Porque, veja bem: se o cara largou o emprego vitalício de juiz de carreira, pra embarcar num sonho de república, e ele está metendo o pé, corram pras colinas.
Acabou, Bolsonaro.
Mais dia, menos dia, seremos um país devastado pela morte, como Amazonas já está, devastado pelo desemprego e miséria, mas mais que isso,

devastados pelo ódio implantados pela direita brasileira, que se trai a si mesma com muita volatilidade e numa velocidade que PT nenhum conseguiu.

O povo brasileiro precisava desse sofrimento?
Não.
Mas eu acho, humildemente,
que Deus cansou de ser brasileiro.

Deus foi embora.
Sozinho, anda pelas ruas, com o Papa argentino.
A Argentina está muito melhor que nós.

No circo, morrerão os que pagaram pelos bilhetes, e os que foram obrigados a assistir. E a vida política é injusta. E o ódio decorrente dessa injustiça vai marcar a próxima eleição presidencial.

Isso,
se tivermos uma eleição. Ou eleitores.
Ou país.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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