Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Neste Dia do Trabalho, como mais novo lascado, digo: não se desespera, não

Meu lugar de fala hoje é como desempregado. Você tá perdendo emprego, eu, todo mundo, mas, olha, ainda é melhor que perder vidas

atualizado 01/05/2020 11:30

Arte com uma guilhotina cortando carteiras de trabalhoGui Prímola/Metrópoles

Escrevo essa coluna sabendo que perdi o emprego na outra coluna.
Acabei de desligar o telefone, onde, do outro lado, uma voz com muitos desconfortos simplesmente disse que eu estava desligado da redação.

Eu gosto assim.
Escrever com lugar de fala.

E meu lugar de fala hoje é de desempregado.
E usando todo meu lugar de fala de mais novo lascado na vida, quero fazer você pensar, no caso agora, COMIGO, né, sobre o trabalho na era do pós-Covid.

A gente vai ter que pensar muitas coisas, meu amigo.
Ir nos restaurantes não será a mesma coisa. Há restaurantes colocando divisórias de vidro entre pessoas numa mesma mesa, outros medindo a temperatura de quem entra. Num lugar que, claro, não se pode ficar com máscara pra comer, e comer com alguém, em silêncio, é praticamente eliminar um marco civilizatório, tá na cara que aquele chopinho e os torresmo, metendo o malho na vida dos outros em voz alta, acho que acabou.

Quer dizer, pra muita gente acabou.
No Rio, onde as pessoas ainda não levaram o coronavírus a sério, não acabou não.
As pessoas preferem morrer bebendo que espirrando. Ou preferem morrer transando que tossindo. São escolhas, né?

O 04, pegador de metades de condomínio, quer morrer transando. E diz isso justo onde um transante transa: numa cadeira, em frente a um computador, onde joga por 10 horas diárias.

Vai morrer transando, muito.
Com a mão, vendo XVideos.

Agora nem sei se podia falar essa frase. Será que é por causa dessas coisas que eu fico desempregado? Vem comigo, enquanto escrevo a coluna, vou fazendo essa introspecção de quem saiu da guilhotina do RH.

A gente vai ter que pensar o casamento também. O que tá rolando de divórcio nesse confinamento. E adultério no banheiro. Toda hora ele, ou ela, dá aquele pulinho no banheiro, pra fazer um pixi, um totô, na verdade, tá rolando é live e muita libertinagem digital.

Sexo virtual virou uma realidade cotidiana, né.

A educação é toda EAD. Escolas primárias, secundárias. Se a educação é a distância, o sexo também. SAD. Sexo a distância. Mas fica “sad” mesmo, porque é triste.

Sad no inglês é triste.
Eu sou viajado. Quase ganhei um Jabuti. Me respeite. Vou vender pano de prato na rua amanhã, mas já fui importante.

Portanto, o trabalho também precisará ser repensado. E para além do tradicional home office, mas mesmo os trabalhos com necessidade de presença em empresa ou indústria. E outras funções, outras profissões surgirão desse momento de incertezas. A gente vai ter que botar a cabeça pra funcionar com um celular, uma internet e um serviço ou produto.

O que você tem feito pra pensar o trabalho nesse mundo que vai enfrentar uma recessão pior que a de 1929?

Hoje é primeiro de maio. O Dia do Trabalho. Seria um dia triste (sad, do inglês, cuidado comigo, eu sou 1/6 bilíngue) se nada disse tivesse acontecido. Porque os direitos trabalhistas e previdenciários foram demitidos também nos últimos 3 anos, e este primeiro de maio de 2020 seria triste de qualquer jeito.

Mas agora, mais ainda.
E como o empresariado brasileiro é ignorante e sem estratégia, a única coisa que fazem é mandar funcionário ajoelhar e orar na porta da loja, ou reabre shopping com o Kenny G da Porta do Cemitério em Blumenau, lugar que teve um aumento de 173% de casos depois de um dia de reabertura.

Para além dos serviços de delivery, o que podemos fazer para trocar conhecimento, valor, serviços, e dinheiro nesse tempo? Sabendo que dinheiro é algo escasso. Devemos empreender para sobreviver, antes mesmo de pensar em fazer renda. Será que estamos voltando ao tempo em que teremos que trocar um serviço por outro, ou um produto pelo outro?

Conheço pessoas que estão fazendo pão em suas casas. Outras, acredite, fazem manteiga caseira. Outras atendem pacientes em sessões de terapia, outras são personal trainner. Há de tudo. Uma profissão em baixa é a de influencer, mas vamo deixar esse assunto pra lá. Vai que isso me fez perder o emprego.

O que você faz? O que pode oferecer para vender ou trocar? Que serviço? Nos tempos de extrema solidão de confinamento ou de restrições, até compartilhar presença é algo necessário.

Mas não fica desesperado não. Isso que tá acontecendo é com todo mundo. Você tá perdendo emprego, eu, todo mundo. Soube que a tradicional fábrica de Biscoito Globo, no Rio, fechou as portas.

Poxa vida.
Não tinha como ir no Rio e não comer um Biscoito Globo e um mate nas areias de Copacabana, por 8 reais. Acabou. Centenas de ambulantes que compravam biscoito ali pela manhã, numa fila que começava na madrugada, ficaram sem ter mais trabalho. Eram vendidos quase 7 mil saquinhos por dia, mas agora, está tudo encerrado por tempo indeterminado. Uma perda, grande.

Mas olha, ainda menor que perder vidas. Porque com saúde, amigo, a gente reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima.

Neste dia do Trabalho, o que mais precisamos é saber como trabalhar.
Espero encontrar vocês aqui, semana que vem.

Feliz Dia do Trabalho, seja lá o que isso signifique.
Que tempos tristes, senhores.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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