Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

No futuro, este tempo será conhecido como aquele em que as máscaras caíram

Elas estão caindo uma a uma. De pano, de papel, as do governo, penduradas na orelha. Nossa demagogia está toda exposta

atualizado 08/05/2020 12:39

Ilustração de um homem com charuto na boca e uma máscara embaixo do queixoGui Prímola/Metrópoles

Esta semana me envolvi numa luta, muito embora eu saiba que não significa nada.
Uma marca de roupas, a Osklen, que não é de luxo, mas tem peças caríssimas, decidiu vender máscaras por R$ 147.

Como justificativa, a empresa alega que pesquisa e investe em sustentabilidade e materiais inovadores. E, nesta ação, alegou que ia pagar por cestas básicas a moradores do Jacarezinho, favela da região do subúrbio da Leopoldina, no Rio.

Embora, de acordo com o Dieese, o valor atual de cestas básicas variem em torno de R$ 517, podemos considerar que a Osklen se preparava para realizar o milagre da multiplicação dos pães e peixes, como Jesus, um judeu marginal dos tempos de outrora, fez.

Ocorre que Oskar, dono da Osklen, judeu igual a Jesus, não é, no entanto, um rabino milagreiro. É, pasmem, médico. E empresário.

A sociedade civil se manifestou. Funcionários da Osklen e uma consultora deles vieram nas minhas redes me questionar, agredir verbalmente. Tirei os prints, porque vai que um dia preciso.

Não fui o único. Dezenas de pessoas que formam opinião escreveram. Resultado: Osklen tira as peças do ar, apesar do Oskar dizer que nossa “propaganda” foi ótima porque venderam tudo, graças a nós, e ele vai pedir o DOBRO de máscaras.

É a arrogância do empresário tupiniquim. Ganha dinheiro numa moeda desvalorizada, mora num país de tantos contrastes e cada vez menos dignidade, mas se acha importante por ter um flat no Leblon.

Ah, o Leblon.
Esse lugar onde moram pessoas perigosíssimas. Aécio. Cabral. Adriana Ancelmo. Pezão. Paulo Guedes. Não ande pelo Leblon depois das 10 da noite com a mochila aberta. Tem uns meliantes ali barra pesada mesmo.

Aliás o Rio, né?
No Leblon, os malandros da “velha” política. Na Barra, 12 km depois, Bolsonaro e sua milícia.

Caramba, meninos.
O Rio está no poder. E isso não é bom.

Mas nós vamos lembrar deste tempo.
Do tempo em que atrizes desprezaram a morte de cantores e artistas fundamentais para a cultura brasileira.

O tempo em que blogueiras fizeram festas em seus apartamentos depois de infectar pessoas. O tempo em que madames aprenderam a limpar a mesa de centro com perfex, e acham que merecem elogio por isso. O tempo em que um presidente se desespera em público, na maior bagaceira, mandando jornalistas calarem a boca.

No tempo em que escola particular em Brasília decide aumentar as mensalidades em plena pandemia, com pais que estão sob risco de perder o emprego. No tempo em que pastores mostram os dentes de cachorro raivoso e exigem que os crentes compareçam no culto, com o dinheiro na mão. No tempo em que a classe média alta em Belém pressiona o governo a impor como essencial o serviço das empregadas domésticas.

No tempo em que jornalistas apanham daqueles que dizem defender a liberdade e o Brasil. No tempo em que um ministro da saúde se esquiva de respostas, nitidamente confuso sobre como colocar em si mesmo uma máscara, e, como Oskar, ele é médico. E nesse tempo, uma empresa que faz máscaras de pano por R$ 150. Tão cara que deve vir com a cura, enquanto Marcelo Crivella dá máscaras na Central do Brasil feitas de cartolina.

No futuro, esse tempo será lembrado pelo contraste entre o que ouve e o que vê.

Eu trabalhei, com orgulho, na Globo, na função de roteirista, com outros roteiristas vindos de periferia.

Um dia, tivemos uma aula. Era Rafael Dragaud, uma pessoa inteligentíssima, um dos maiores profissionais do audiovisual que eu conheço.

Dragaud nos explicava como se forma um personagem, e no meio da aula, ele saca essa:

“O personagem não é o que fala,
o personagem é o que ele faz.

Quer conhecer um personagem?
Tira o áudio.”

Soco na boca, né?
Depois li livros de roteiro e percebi exatamente isso.

Inclusive nessa nova série do Netflix, “Hollywood”, há esse conceito.
Numa cena, um ator é ensinado a representar um homem poderoso.

O ator chega na cena gritando, ameaçando pessoas, em voz alta, descontrolado.
A ensaiadora, uma mulher muito experiente, mandou ele parar. Baixar a voz. Ficar calmo. O ator não entendeu nada, e perguntou o porquê.

– Porque quem tem poder, não grita.

O personagem é o que ele faz, não o que ele fala.
O grito combina mais com o desespero, não com o poder.
Mandar calar a boca combina mais com o desespero, não com o poder.
Gritar é pra quem está à beira da morte.

Quem tem poder não grita.
Quando olho pra este filme chamado “Bolsonaro”, vejo um personagem sem poder, estúpido e desesperado. Mesmo com uma faixa presidencial no peito. Um desequilibrado.

Ao olharmos para este tempo, no futuro, ele será conhecido como o tempo em que as pessoas se revelaram. Marcas serão deixadas no tempo e na história. As máscaras estão caindo, uma a uma. De pano, de papel, as do governo, penduradas na orelha.

Caras ou baratas, feitas com muitas mentiras, marketing, votos ou ódio, feitas de racismo, ódio de pobre, sexismo e homofobia, todas elas estão caindo.

No futuro, este tempo será conhecido como o tempo em que caíram as máscaras.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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