Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Saia da fase de negação e aceite o confinamento. Ele vai passar

É preciso aceitar, porque o confinamento tem fases, como o luto. Primeiro vem a negação, depois a busca de sentido. A rotina nos salvará

atualizado 26/03/2020 22:08

Arte para coluna de 27 de março de 2020Gui Prímola/Metrópoles

Pra quem “levou a sério”, pra quem não, fato é que estamos, a maioria de nós, confinados. Na Índia, mais de um bilhão de pessoas estão confinadas desde hoje. Quem sai na rua, a polícia dá de bambu. Sim, isso mesmo. O policial vem e bate de bambu no meio de sua cara. E grita.

Polícia da Índia trabalhada no critério humilhação dos quebradores de quarentena. E sempre vai ter um indiano filmando. E vai postar no TikTok.

E por isso eu sei tanto do confinamento na Índia. Tô vendo uma série de gente apanhando de bambu e acho que essa técnica deveria ser aplicada no Rio. Carioca, no fundo, só entende as coisas na base da esculhambação. Tem uns vídeos circulando, com gente jogando ÁGUA nas pessoas na rua. Em outro tempo, um outro Anderson, apenas ia rir disso. O Anderson de hoje vai pra janela e aplaude as pessoas que jogaram a água.

Não estou sendo antiético. Estou preferindo que você fique vivo, molhado, do que morto, sequinho.

Mas muitos não estão aceitando o confinamento. E é preciso aceitar, porque o confinamento tem fases, como o luto. Tem uma parte inicial, de não entender do que se trata. Você pensa, logo nos primeiros dias, que está de férias. E isso aconteceu em Floripa. As pessoas, no primeiro fim de semana de confinamento, quando ainda se falava de “autoconfinamento”, foram às praias do litoral catarinense, isopor com cerveja, camarão, belisquete.

Demora uns dias pra você entender que não é férias, e nenhum governo, fora o do Planalto, vê isso como férias. Então você, contrariado, fica em casa.

Nesse momento, você ainda não “entrou” no confinamento. Você ainda não acredita, não sabe bem do que se trata, não leva a sério, tenta gritar nas redes sociais que isso não faz sentido. Você começa a entrar no confinamento por volta de uma semana depois. Quando percebe que ninguém estava brincando quando dizia: “Fica em casa”.

Aí, você sai dessa primeira fase de negação, e entra numa segunda fase, de busca de sentido. O que fazer. Mas é atravessado por uma realidade. Se é casado, casada, tem filhos, você está no grupo que sofre mais do que qualquer outro: lidar com o cônjuge, os filhos e consigo mesmo. No caso, mesma. Porque recai sobre a mulher, mãe, todas as pressões e ansiedades do núcleo familiar. Porque não foi uma sociedade de princípios feministas que foi confinada. Mas uma sociedade patriarcal ocidental.

Então, a mãe vai ser esmagada em suas rotinas pessoais, e vai ter que dar conta de todas as crianças da casa, inclusive o marido.

E este é o problema. Homens que não estavam preparados para ver sua família, por tanto tempo, e fazer algo que odeiam: dialogar. Pior: dividir tarefa.

Quem é mãe e me lê, sabe bem. Tá com excesso de criança pra cuidar em casa. A educação patriarcal é uma bosta, porque anula a autonomia do indivíduo homem na casa, que acha que sua única função é conseguir job e dinheiro.

Mas é na segunda semana que o quesito rotina começa a apertar. E vem a frustração de se estar preso. Por que é isso, né? Não pode sair toda hora. Alguns nem podem sair, porque são grupos de risco. E então projetamos a frustração para o outro, e nisso, tem muito casal falando em divórcio. Mas não entrem nessa. É a fase do confinamento.

A rotina vai salvar a gente. Eu vou parar por aqui hoje, pra falarmos, semana que vem, sobre as outras fases. Preciso também viver um pouco, por vez. Escrever menos, pra escrever todos os dias. Daqui, mando um abraço pra vocês.

Mantenham alguma rotina. Acordem, nos horários que acordavam antes. Tentem fazer terapia em canais on-line. Muitos profissionais estão oferecendo serviços, gratuitos. Vamos ligar pros amigos. Assistir às lives.

Vamos passar por isso.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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