Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Viramos o mês (e o mundo). Quem vai perdoar nossas dívidas?

Nossa vida não se resume a aluguel, luz e comida. Não sabemos o que fazer com cartão de crédito, cheque especial e as prestações da escola

atualizado 11/04/2020 11:21

Arte sobre código de barras de boletos em tempos de coronavírusGui Prímola/Metrópoles

Viramos o mês.
Aluguel vencendo, contas e prestações. Até onde sei, conta de luz não pode cortar, mas ninguém diz muito sobre as prestações da TV, do carro, do cartão de crédito, do limite do cheque especial, da loja de roupas…

Vou citar nomes, hein, e quando cito nomes, merdas acontecem, mas vou citar:

O cartão Renner, o cartão Riachuelo, as faculdades particulares, as escolas particulares, as CRECHES particulares, os planos de saúde, a internet, a TV a cabo, nossa vida não se resume a aluguel, luz e comida.

Fora o gás, que tá batendo 115 merréis.
Tá, não vai cortar a luz, mas vai fritar um carré onde? No tablet?

E é aí que, ao virar o mês, o cabôco fica intrigado com esse negócio de capitalismo.
Se TUDO em volta de nós custa dinheiro, o que é a vida?

Qual a decência dos limites do dinheiro?
Se você não tiver dinheiro algum, você existe?
A vida, bem que nos foi dado de graça porque você não pagou pra nascer, esse bem, na verdade, não é aproveitado. Ele depende de dinheiro para que, então, você diga que está vivendo. Ou, no caso do Brasil, sobrevivendo.

Mas esse troço todo que estou dizendo aqui se resume num conceito:
Perdão de dívidas.

Civilizações antigas, o Egito, a China, a Índia, os hebreus, todas essas sociedades PERDOAVAM DÍVIDAS, públicas e privadas, quando estas chegavam a um valor impagável ou concorressem com a fome, ou a desgraça do próprio povo, ou diante de uma desgraça.

E essas civilizações duraram mais, seja na História, seja em legados culturais e científicos duradouros, do que o Império Romano.

Os romanos foram os primeiros da História a NÃO PERDOAR DÍVIDAS.
Para além das disputas políticas internas e externas, as dívidas públicas e privadas de Roma – as que ela não perdoou – foram também causas para seu declínio e extinção.

Desde então, nós preferimos morrer que perdoar uma dívida.
Quando o capitalismo dominou o mundo, a cultura de não se perdoar dívidas era antiga nos bancos de Veneza.

E agora, nós estamos diante de um problema que civilizações maiores do que a nossa não tinham.

Te lembra do Ciro dizendo que ia trabalhar pra tirar todo mundo do SPC?
Chega uma hora que não dá mais. As dívidas passam a existir para alimentar o estômago incansável dos bancos, cujo lucro dos quatro maiores chegou a R$ 81,5 bilhões, e isso é maior do que o PIB de muitos países.

Imagine que coisa importante seria se amanhã diversos credores, bancos, financeiras, perdoassem, se não tudo, uma boa parte da dívida para que nós pudéssemos voltar?

E isso não seria perder dinheiro, pelo contrário. O banco teria segurança de reaquecer o mercado em menor tempo e continuar ganhando. Não precisa investir dois bilhões. Basta perdoar dois bilhões. Dois. Ganharam oitenta e um. Perdoa dois. Quantos brasileiros iam recuperar a vida com o limite do cheque especial perdoado?

Então os músicos e cantores estão fazendo lives pra pedir dinheiro. E arrecadam milhões. A dona do Magazine Luiza não vai demitir ninguém, deu dinheiro e ainda comprou uma porrada de colchão. O governo, leia-se o parlamento e as articulações políticas, excluindo o Planalto, vai pagar o auxílio emergencial.

Mas NADA disso resolve o problema.
Há uma parte desse processo, dessa máquina, que precisa ceder também.
E são os credores privados.

Aí você, com essa boca cheia de biscoito cream cracker, vai me dizer: Anderson, temos que ir pra rua trabalhar, fazer dinheiro.

Não, querido. Tem uma hora que o mercado precisa tirar do seu cofrinho e arcar com o processo. É o que chamamos de responsabilidade social.

Porque vidas valem mais do que dinheiro.
Você, se pode perdoar a dívida de alguém, pelo menos uma parte, faça isso.
Eu fiz isso. Algumas vezes na vida.
E faria de novo, quantas vezes fossem necessárias.

Se as pessoas forem trabalhar, elas morrem.
Se todo mundo morrer lá fora, dinheiro não vai resolver teu problema. Porque dinheiro, num mundo de cadáveres, não significa nada.

E nós precisamos ficar vivos. Porque dinheiro a gente ganha.
Mas não existe um único banco onde possamos pegar emprestadas mais umas horas de vida, pra pagar no especial.

Essa crise veio pra nos mostrar o quão humanos somos diante do extremo.
Pra nos mostrar quem somos diante dos números.
Eu parei de olhar números.

Toda vez que eu vou ver, me assusto. Já me conformei que chegamos ao momento em que o número é: GENTE PRA CARALHO.

E pronto.
Consegui, depois de 32 dias isolado, totalmente isolado do mundo lá fora, o qual vejo da janela, mas não posso tocar com meus pés, criar um tipo de bolha. Logo no início, via os números todos os dias. Quando chegaram a 120 mil, fiquei aterrorizado. Hoje, beiramos 2 milhões.

Em Portugal, esquerda e direita se uniram e é o país com menor incidência de infectados e mortos da Europa.

Em Portugal, se perdoarão dívidas. Imigrantes foram legalizados. Perdão de aluguéis. Perdão de contas.

Nós precisamos, de hoje em diante, pensar em dar um fim no capitalismo que destrói tudo. E podemos fazer isso começando pelo princípio de nunca mais jogar o voto fora. Porque precisamos cogitar que, se um dia o barco virar, teremos um capitão que nos ajude a nadar, e não um que nos afogue sozinhos, enquanto ri com seus amigos.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

Últimas notícias