Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver

Em Brasília, o verbo chover se conjuga em todas as pessoas

Aqui, a gente brinca de "está chovendo aí?". Aqui, vemos tudo acontecer: as nuvens se juntando, estufando, escurecendo, descendo

atualizado 07/02/2020 18:45

Igo Estrela/Metrópoles

Quando a cidade era apenas um vermelho-ferrugem ferindo o cerrado, as duas estações de Brasília eram muito bem delimitadas: seis meses de seca, seis meses de chuva. Chovia em todos os tempos e modos verbais — chove, choveu, choverá, chovia, chovera, choveremos, chovíamos, chovestes.

Pode-se dizer que o concreto armado da capital moderna nasceu da lama. Deve haver vestígios dela em todas as estruturas de cimento e brita que sustentam os três poderes, e nem me refiro ao lamaçal metafórico.

Queria ter estado aqui nos tempos da chuva absoluta, embora ainda esteja. Porque nem o concreto armado (e a ganância e o mau gosto dos empreiteiros) conseguiu derrotar o espetáculo da chuva no Planalto Central.

Brasília é como um grande telescópio urbano plantado no deserto. A chuva não cai no meio da rua, na janela de casa, na entrada do prédio, na calçada. Aqui, a chuva cai como caiu pela primeira vez na Terra. Vem do céu, escorre das nuvens em quilômetros de quedas d’água como cachoeiras deambulantes.

Lucio Costa

Lucio Costa não deve ter visto nenhuma chuva no Planalto Central antes de desenhar seu plano-piloto. Mas teve o olhar clínico do urbanista para perceber, nas plantas aerofotogramétricas, que a distância entre a Terra e o céu, na futura capital, era imensurável.

Tanto soube que projetou uma cidade de joelhos para o cosmos. Volumes compactos para reverenciar o universo — e, nele, a chuva, a cosmogonia líquida que nos dá a vida.

O brasiliense adora brincar de “Está chovendo aí? Aqui ainda não”. Em Samambaia, caiu uns pingos. Tem chuva vindo de Sobradinho. Aqui, vemos tudo acontecer: as nuvens se juntando, estufando, escurecendo, descendo. A cortina de chuva ao longe e o Sol em nós, fazendo de conta que não está nem aí.

Woody Allen

Woody Allen bem que podia vir fazer um filme de chuva em Brasília. Ele ia descobrir que não sabe nada sobre as águas que caem do céu — embora as ame tanto que quase toda a obra dele é chuvosa, como a última, Um dia de chuva em Nova York, ou Meia-noite em Paris.

Ele diz que gosta de chuva porque nela a luz é mais bonita, porque nesses dias “as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma”. Não deixa de ser verdade, WA, mas numa cidade muito distante e muito singular, assentada num domo dentro de um anel de chapadas, nessa cidade a luz da chuva é ainda mais bonita e não é apenas uma, é uma paleta de cores, uma Pantone exclusivamente candanga, com todos os tons de cinza que a natureza já pôde produzir. E com pinceladas de alaranjados – os mais inacreditáveis.

Aqui, a chuva é uma emanação divina.

Woody Allen disse também, na mesma entrevista, que “é caro rodar com chuva”. Se não chove, tem de fazer chover de mentira. Aqui, WA, é impossível inventar um aguaceiro. Chover é tão inteiro, tão completo, tão verdadeiro que não dá para fabricar uma chuva com tanque de água e irrigador de jardim. Chover aqui é verbo no infinitivo.

Em Brasília, a chuva não é substantivo, é verbo. Não é fenômeno meteorológico, é epifania cósmica. Aqui, relâmpago não é um vago clarão entre edifícios ou atrás das montanhas. Aqui, o relâmpago fende o céu como um meteoro de fogo. E o vemos por inteiro, do pé à cabeça. Até o trovão troveja com mais valentia nessa estranha cidade-cósmica.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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