Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver

Mercês Parente, 68 anos, a mais ativa foliã do Carnaval candango

Dias atrás, ela ouviu de um dos porteiros do seu bloco na Asa Sul: “A senhora faz mais coisas por semana do que nenhum morador aqui faz"

atualizado 18/02/2020 16:44

Rejane Agra/Esp. Metrópoles

Quando desceu fantasiada pela enésima vez só neste Carnaval, a foliã de 68 anos recém-completados ouviu do porteiro de um bloco da Asa Sul: “Dona Mercês, a senhora faz mais coisas por semana do que nenhum morador aqui faz o ano inteiro”. Está vivíssima, a Mercês. Na semana passada, ela brincou todas as noites, menos a de sábado, porque precisava descansar para o domingo.

A piauiense Mercês Parente não anda em perfeitas condições de saúde. Já passou por vários perrengues físicos ao longo da idade e, por esses dias, lida com os desconfortos de uma gripe mal curada e alguma alergia na pele. Pouco importa. Desde a saída do primeiro bloco pré-carnavalesco, a pesquisadora (e colecionadora) de arte popular brasileira e gestora pública aposentada desce pra debaixo do bloco devidamente montada: adereços nos cabelos, nas orelhas, nos braços, no colo, glitter no rosto, roupas de cores inquietas e estampas felizes. E sandálias incríveis!

Talvez seja a mais conhecida, fotografada, filmada e festejada foliã candanga. Tivesse o dom da ubiquidade, estaria em todos os ensaios, os eventos, os pré e os pós-Carnavais desta cidade que um dia foi fria e hoje ferve de folia, apesar da (quase) má-vontade do GDF, aquele que prometeu R$ 4 milhões para a Vila Isabel, a escola carioca que vendeu para o governo o enredo sobre os 60 anos de Brasília e até ontem não havia visto um centavo da quantia prometida.

Mas essa é outra conversa.

Rejane Agra/Esp. Metrópoles
Mercês não perde a folia nem a oportunidade de fazer novas amizades

Essa crônica pretende ser mercediana, carnavalesca, movida por um desejo de escapar da dureza da realidade e se lançar na fantasia de se poder ser que o é ou de ser um outro que não sabemos quem seja. Ou mesmo, e acho que esse é o caso de Mercês, de estar encadeada às multidões, cúmplices uns dos outros na vontade de ser livre, ser um e ser ao mesmo tempo todos num surto de alegria coletiva. De reconhecer que a humanidade existe, não é apenas uma abstração beirando o fracasso.

Onde chega, Mercês puxa conversa com quem está ao lado – qualquer que seja a identidade de gênero, a orientação sexual, a idade (ela puxa conversa até com bebê no carrinho) a cor da pele, a classe social, seja morador de rua ou artista plástico de vanguarda, vendedor de cerveja ou tocador de bandolim.

Mulher forjada na resistência democrática à ditadura militar de 1964, Mercês faz do bloquinho um gesto político. Sempre que aparece a chance, dança em frente aos paredões de PMs (que no Bloco do Amor, jogou gás de pimenta no ar, manobra para dispersar os foliões que continuavam próximos ao carro de som depois de encerrado o horário regulamentar).

Quem olha Mercês pensa que talvez ela seja uma foliã desgarrada da família, que se mistura ao mundo para fugir da solidão da velhice. Nem de longe: ela está cercada de irmãos, sobrinhos, netos, irmãs, sobrinhas, netas – um delas lhe deu de presente as asas da fantasia do Bloco do Amor. Mercês foi a “perfeita” do carnaval LGBT de 2019 e este ano desfilou no alto do carro de som. A foto da Mercês está num lambe gigante colado na S2, via que passa atrás da Catedral.

Nesse domingo (16/02/2020), no Cafuçu do Cerrado (Setor Bancário Norte), Mercês comentava: “Esse negócio de ‘para sempre’ é muito pesado pra mim, por isso nunca fiz uma tatuagem. Diz que gostaria de algo discreto, no pulso talvez. O que não pesa na foliã incansável é a disposição de ajudar o outro seja numa emergência médica ou apenas na escolha um adereço para os cabelos ou recomendando às amigas que deixem o carro em casa e ao motorista do Uber que não dirija à noite

Rejane Agra/Esp. Metrópoles
A alegria da foliã é presente nas roupas, nas fantasias e na gargalhada contagiante

E se alguém se escandaliza com o jeito desbocado – as palavras na boca da Mercês não são pornográficas, apenas designam a coisa como ela é –, se porventura alguém se assusta (e me assusto até hoje, nesse meu jeito pudico/anacrônico), o desconforto desaparece tão logo ela solta uma de suas gargalhadas guturais. E se o assunto muda de sexo para política, por exemplo, Mercês oferece uma afiada análise de conjuntura.

Hoje é dia de samba. A menos que haja uma hecatombe, Mercês estará a postos, deslizando os pés, rebolando as cadeiras, e cantando essa vida ao mesmo tempo bela e cruel, festiva e dramática, eterna e precária. Mercês Parente transita entre o trágico e o feliz sem dar muita bola pra o primeiro.

Nota do secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues:

“O acordo de cooperação firmado entre o Governo do Distrito Federal e a escola de samba de Vila Isabel não prevê repasse de recursos públicos do DF. Pelo instrumento, compromete-se o GDF a ‘auxiliar o interveniente na captação de recursos via Lei Federal de Incentivo à Cultura (a lei Rouanet) Todos os esforços nesse sentido foram realizados de modo a facilitar o acesso das escolas aos recursos privados.'”

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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