Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver

O capitão, a baleia, o ódio, a vingança, os covardes e os mortos

A história de um capitão ressentido, vingativo e delirante que, para realizar sua insana obsessão, levou todos à morte, inclusive ele

atualizado 17/05/2020 12:32

Yanka Romão/Metrópoles

Atenção: esta crônica é toda um spoiler. É baseada em Moby Dick, a monumental obra de Melville. Os diálogos foram retirados de Moby Dick, o também monumental filme de John Huston. A leitura deste texto, asseguro-lhes, não tirará nada do espanto e da beleza da leitura do livro de Melville nem do assombro diante das cenas do filme de Huston.

A literatura, como metáfora do real, nunca trai o humano. Ela nos conduz ao espelho sem dó nem piedade, às vezes com lirismo, outras com magia, e ainda algumas com crueza.

A obra-prima do norte-americano Hermann Melville é uma metáfora espantosa do que acontece neste 2020 em certo país muito longe de onde um capitão ensandecido levou toda a tripulação do navio à morte, exceto um, Ishmael, que sobreviveu para ser o narrador da história, um dos mais intensos (e minuciosos) relatos empreendidos pela literatura ocidental da era moderna. Dolorosamente atual.

Comecemos:

Sempre que estava inquieto, angustiado, o jovem Ishmael seguia o rumo das águas até chegar ao mar: “Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que minha hipocondria me domina… então calculo que é tempo de fazer-me ao mar e o mais depressa possível”.

Daquela vez, foi dar na cidade de New Belford (EUA) para seguir rumo a Nantucket, de onde partiam os barcos baleeiros. Logo conheceu Queequeg, um canibal tatuado nativo de uma fictícia ilha do Pacífico Sul, de quem será amigo durante toda a aventura. Os dois, e muitos outros, lançam-se ao mar no Pequod, o navio baleeiro que vai se tornar um microcosmo das relações humanas, de trabalho, de poder, de amizade, de traição e de diversidade racial.

No navio baleeiro, talvez um dos mais famosos da literatura ocidental, juntam-se uma babel de nacionalidades e etnias – índios, negros, brancos, mestiços, todos na mesma condição de tripulantes caçadores de baleia, ávidos por riqueza, brutos e destemidos.

A viagem começa sem que os tripulantes conheçam o capitão. Só o veem trancado no cubículo de madeira e, à noite, ouvem uma batida surda e ritmada no teto do convés. Lá em cima está o Capitão Ahab, e o som misterioso vem da perna de marfim, que substitui a carne e os ossos que a baleia comeu. “Moby Dick rasgou meu corpo e minha alma até que se misturassem um no outro.”

 

Os homens do navio são baleeiros. Vão ao mar para caçar baleias, estripá-las e tirar-lhes o marfim dos dentes e a gordura da carne para transformá-la no óleo que alumiava as lamparinas de então. Embora experientes, não suspeitavam que o misterioso capitão tinha outro projeto, o de se vingar da baleia.

Depois de muitos sóis mar adentro, os homens matam a primeira baleia, transformam a gordura em óleo e passam a noite cantando, dançando, tocando instrumentos de percussão e sonhando com os lucros da primeira caçada. Mas não são esses os planos do capitão.

“Ela é branca – Ahab descreve. É uma ilha, grande como uma multidão. Nada em todos os mares.”

E exorta os homens no convés: “Que Deus nos cace ou caçamos Moby Dick até que ela morra”. Gregory Peck está soberbo no papel de Ahab. Há nele ódio sepulcral nos olhos de mármore e tirania na voz vinda das trevas.

O piloto do Pequod, Starbuck, é um homem sóbrio, firme, “extremamente consciente para um marinheiro”. Ele só aceitava no navio homens que tivessem medo de baleia.

“Com isso, parecia querer dizer não somente que a coragem mais útil e mais segura é a que surge da mais justa estimativa do perigo enfrentado como também que um homem extremamente temerário é um companheiro mais perigoso do que um covarde”, diz Ishmael, o narrador.

Starbuck logo percebe que o capitão deseja muito mais do que caçar baleias, ele quer se vingar de todo o mal que uma determinada baleia lhe fez, de todo o mal que supõe ter recebido do mundo. “Vim para caçar baleias, e não para a vingança do comandante”, refuta o piloto.

“Sentir ódio e seguir seus instintos é uma blasfêmia”, ao que o capitão reage: “Arranco o sol daquele que me insulta”. E prossegue: “A tripulação fica comigo”, diz, temendo a insubordinação do piloto.

Outros longos dias se passam até que surge não uma baleia, mas centenas delas. Os marinheiros exultam: ali está a fortuna pela qual arriscaram toda a vida. Ao capitão pouco importa. Aqueles homens foram sequestrados num barco para lhes ajudar na sua obsessão mortífera.

 

“É uma viagem do mal”, inquieta-se Starbuck, o piloto. Para salvar a vida de todos, ele tenta um levante em alto-mar. “Ahab quer satisfazer sua luxúria por vingança, ele está distorcendo algo que é sagrado e transformando em algo negro e sem propósito. Ele é um campeão da escuridão. Se Ahab tiver o que quer, nem eu nem você, ninguém desse navio voltará a ver o seu lar.”

Os dois ajudantes de ordem se acovardam, um deles diz: “Capitães não desrespeitam a lei, eles são a lei, no que me diz respeito”, e sai batendo a porta.

Muitos mares depois, sob sol excruciante e noites sem vento, finalmente surge Moby Dick. Brota da escuridão, em vulcões de espuma e sobrevoo de gaivotas. “Não é uma baleia, é um Deus grande e branco”, diz um dos homens.

O maior animal do planeta passa dias contornando o navio, submerso. Só os pássaros dão notícia de que ela está por ali. Até que finalmente ressurge, e todos os homens, incluindo o capitão, já estão nos barcos, com suas cordas e arpões, para vencer o monstro marinho.

 

Moby Dick avança sobre todos, ainda assim, o alucinado Ahab consegue perfurar o dorso da baleia com seu arpão amarrado em corda. Sobe nela e mergulha junto com a ilha de carne, gordura e marfim. Quando emerge, está completamente amarrado na própria corda, colado no corpo da baleia. Ainda assim, luta com o único braço que permanece livre.

Da segunda vez que Moby Dick salta, Ahab está morto, amarrado àquela que ele queria matar. Todos os homens também são devorados pela criatura majestosa. Antes de ser engolido por ela, um dos baleiros diz: “Não é o diabo, não é um mito, é só uma baleia”.

Só Ishmael sobrevive, agarrado a um caixão que o amigo Queequog havia mandado o carpinteiro fazer porque sabia que a morte viria em breve. “Só eu escapei sozinho para lhes contar.”

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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