Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver

O corona trouxe a solidão para o espelho. E tudo o que estava escondido

A Covid-19 encheu a casa de espelhos, as cidades, os países, os continentes, o planeta, tudo virou um grande espelho da condição humana

atualizado 14/06/2020 12:53

ilustração de espelhoGuilherme Primola/Metrópoles

Muita coisa já deu pra aprender desde as primeiras notícias de que uma estranha e perigosa doença estava se espalhando rapidamente pela cidade de Wuhan, na China Central.

Tudo está mudando (e não necessariamente para o bem) em várias instâncias da vida humana: na geopolítica, na economia, no papel do Estado diante de seus cidadãos, naquilo que podemos, de modo difuso, chamar de humanidade, nas relações profissionais, nas relações familiares e – fundamentalmente – em nós mesmos, para aqueles que se dispõem a aprender.

Para os que podem ficar em casa, e são poucos, o corona nos impôs a solidão sem disfarces. Mesmo que em família, aprisionados num apartamento ou, os mais privilegiados, numa casa. A palavra solidão por si só é imperativa como uma montanha, intensa como a escuridão, que com ela rima. Solidão é palavra de rima fácil – dissolução, imaginação, segregação, criação.

No mar de sentidos que uma palavra pode ter, solidão rima com isolamento, apartamento, orfandade, unidade. Pode significar quarentena, segundo o precioso Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, do goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.

Solidão é o que somos e isso nos deixa muito perdidos. É sozinho que se morre. É sozinho que se faz escolhas, conscientes ou não. E mesmo nascer, embora saindo de dentro de outro corpo, é muito solitário. Ninguém sente por nós nem conosco o impacto de vir ao mundo. Solidão não tem conosco.

Solidão é esconderijo – de todos o que mais gosto. Nenhum lugar é melhor do que dentro de mim. Mas, ao mesmo tempo, preciso do outro do lado de fora para confirmar em mim a minha existência. Sem o outro eu nem existo. Minha solidão sabe que há um outro lá fora, talvez por isso seja tão placidamente solitária.

Tenho filho, mas nunca me casei. Não saberia como é dividir a cama todas as noites, durante anos, com uma pessoa. É tão estranho que chega a me causar aflição.

Tem gente que não sabe dormir sozinho – e não é essa medida que o faz mais feliz ou mais infeliz do que eu. Tem gente que só existe com o outro, como aqueles casais longevos – se um morre, o outro também. É uma solidão a dois, solidão.

Solidão é uma coisa diferente pra cada um. Existem tantas solidões quanto almas habitando o mundo. Ao mesmo tempo, é a mesma para todos, porque somos inescapavelmente sós, insulados num corpo que nos esconde dentro de bordas de pele.

Solidão é remanso, mas também é tormenta. A solidão, não poucas vezes, é um boleto que vence hoje. No isolamento do corona, a solidão é um suceder infindável de boletos. Como se nunca mais as contas fossem ficar em dia – o que é uma metáfora para alguns e uma realidade implacável para a maioria.

De um jeito ou de outro, todos os que estamos em isolamento há quase três meses ficamos diante do boleto da vida. Comigo, tudo o que vivi tem aparecido na memória, como quando se tem consciência de que a morte se aproxima.

Os acontecimentos de minha vida têm vindo em flashes desordenados – de repente, me lembro de um passeio no metrô de São Paulo (amo o metrô de SP). Outras vezes, sinto o cheiro da fogueira de São João da minha infância. Já me deu vontade de fazer a sopa de ossos de boi que meu pai fazia ou de recortar franjas de papel para enfeitar as prateleiras, como minha mãe fazia.

Por alguma razão que desconheço, só me lembro das coisas boas – não das estrondosamente maravilhosas, que nem foram muitas, mas daquelas que passaram tão rapidamente que nem percebi. E agora elas voltam para me dizer que estiveram em mim esse tempo todo – elas são a minha solidão acompanhada e silenciosa.

Solidão é clausura, esquivez, incomunicabilidade, despovoamento. Solidão é sepultar-se em vida, é renunciar ao mundo, segregar-se da comunhão humana. Solidão é o contrário de multidão, mas as duas não poucas vezes andam juntas.

O corona trouxe a solidão para o espelho. Encheu a casa de espelhos, as cidades, os países, os continentes, o planeta, tudo virou um grande espelho da condição humana.

Tudo é solidão, mas a solidão dos pobres, dos pretos, das mulheres, dos que fazem contraste com a suposta normalidade, essa solidão é excruciante. E o corona tirou a roupa dessa solidão. Não tem mais como fazer de conta que ela não existe.

O corona trouxe a solidão negra para as ruas dos Estados Unidos; os olhos esbugalhados e desesperados de George Floyd trouxe a solidão preta para o espelho do mundo.

Como todas as grandes dificuldades que cada um de nós enfrenta, o cruel corona nos concede a chance de nos fortalecer. E a fortaleza nasce dentro da solidão.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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