Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver

Quando Vladimir Carvalho nadou com Leila Diniz no Hotel Nacional

E a tarde chuvosa em que eu dei carona para o mais importante documentarista brasileiro em atividade, dias depois de ele completar 85 anos

atualizado 09/02/2020 20:08

Leo Lara/Universo Producao

Chovia, e ele me perguntou, sorrindo sem jeito, pra onde eu ia, se ia pra Asa Sul. Se fosse, queria uma carona. Eu disse: vou pra onde você for, ele riu, os que estavam na roda também riram, maliciosamente. Ele insistiu: não quero te tirar do seu caminho. Repliquei: te levo aonde você quiser. Ele riu novamente, de novo sem graça, porém de algum modo lisonjeado. Vou pra o Cinememória, começo da Asa Sul. Não me lembrava onde era, embora já tivesse ido lá uma vez, muito tempo atrás.

– Vamos, eu te levo.

Ele no meu carro, meu um-ponto-zero sujinho, burro de carga, com todo respeito aos burros.

– Pode me deixar onde ficar melhor pra você, não quero atrapalhar…

– Capaz que vou te deixar em qualquer lugar… se não me deixar te levar até o Cinememória, nunca mais falo com você.

Olha a minha intimidade!

Eu dirigindo, ele ao lado e eu me dizendo: “Pense! Eu dando uma carona para Vladimir Carvalho!”

Essa Brasília é muito doida, aproxima pessoas com as quais não se teria aproximação fácil. Não porque Vladimir faça pose de estrela, mas porque é de outro quadrado, do cinema, e eu, no meu quadradinho quase não vou ao circuito dos eventos.

Vladimir Carvalho é um dos mais importantes documentaristas brasileiros, o mais importante em atividade.

Já o tinha entrevistado algumas vezes, mas uma coisa é a repórter e o entrevistado, outra coisa, a motorista e o carona.

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Vladimir fez 85 anos dias atrás (31 de janeiro). Me conta que não gosta de auê de aniversário, no máximo um jantar com a Lucília Garcez, sua mulher. O que mais me impressiona nele é o rosto límpido das nascentes. Aberto, curioso, sorridente, vivo como a água que sai da terra para correr o mundo.

Puxo conversa de repórter e ele me conta da primeira vez que esteve em Brasília, novembro de 1969, para a primeira edição do festival de cinema, que ainda não tinha esse nome. Tinha saído de Salvador e ido morar no Rio, já tinha sido assistente de Eduardo Coutinho em Cabra Marcado para Morrer.

Lembra-se daquela cidade-maquete, onde não se via ninguém, como se todos tivessem fugido na madrugada. Foi à Rodoviária tentar encontrar algum morador que ainda estivesse na capital abandonada, também não encontrou ninguém. Voltou para o Hotel Nacional. Todo o cinema brasileiro estava ao redor da piscina bebendo, fofocando e olhando para uma aparição que havia entrado na água. Vladimir tomou dois goles de pinga e mergulhou no retângulo azul. A sereia urbana era Leila Diniz, de biquíni e barrigão – quem viu, jamais se esqueceu.

Chove e eu atenta ao trânsito complicado de fim de tarde e querendo anotar na memória a expressão do rosto de Vladimir. Vi poucos humanos com tamanha vivacidade descortinada em olhos e sorrisos abertos, como se ele ainda não soubesse que o mal existe, como se tivesse vivido toda a vida em ambiente de sonho, como se tivesse 80 anos a menos. O tempo é pluma nos ombros de Vladimir, embora viva imbricado no real. (Não há outro jeito para quem é documentarista). De algum modo, porém, ele conseguiu se proteger das amarguras no seu tanto viver.

O um-ponto-zero desce o Eixo Monumental em direção à W3 e Vladimir vai me contando coisas com a vibração de um menino na roda de amigos da escola (na era pré-celular). O homem que fez No país de São Saruê, Conterrâneos Velhos de Guerra, Brasília Segundo Feldman, Barra 68, Rock Brasília, O engenho de Zé Lins, Cícero Dias, o compadre de Picasso, esses e mais alguns, esse homem está sentado na poltrona suja do meu um-ponto-zero. Estica o corpo e abre bem os olhos como se tudo o tempo todo fosse novidade. Tenho a impressão que ele não se dá conta do tanto que fez – e continua a fazer.

Vladimir está para o cinema como a água para a cachoeira. E nós, brasilienses, assistimos a esse espetáculo grandioso nas telas, nos festivais, nos lançamentos de livros, nas exposições, nas festas, nos bares, e eu, naqueles minutos, conduzindo o destino dele.

Ainda chove quando o deixo na calçada esburacada do começo da W3 Sul. Ele desce, agradece e diz: – Acabei tirando você do seu caminho. Tirou não, Vladimir. Abriu clarões na minha estrada.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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