Deixe os tabus do lado de fora e pode entrar. Tudo sobre sexo, para você gozar a vida.

Conheça a dançarina sensual que é dona de sex shop

A coluna bateu um papo com a empresária Jeni Sandzer, que busca quebrar tabus e empoderar mulheres com a sexualidade e a dança

atualizado 08/03/2020 21:55

Jeni SandzerFoto: Kazuo Okubo

No Dia Internacional da Mulher, mais que parabéns e buquês de flores, mulheres por todo o mundo reforçam o respeito e a igualdade que desejam, não só neste dia, mas durante toda a vida. No processo de empoderamento, nada melhor que se inspirar em exemplos femininos.

Jeni Sandzer é, com certeza, uma dessas pessoas em quem se espelhar. A brasiliense é empresária e professora de dança em uma área importante para o autoconhecimento e libertação das mulheres: sexo e sensualidade.

Proprietária da sex shop Momento Íntimo e idealizadora do curso de dança sensual Meu Momento Ínttimo, Jeni trabalha para incentivar o rompimento do que ela chama de “polícias internas”, moralismo e julgamento – ao mesmo tempo em que, em casa, tem o desafio diário de ensinar o filho de 7 anos a ser um homem desconstruído em meio a uma sociedade ainda machista.

A Pouca Vergonha bateu um papo com a empreendedora, e ela explicou como utiliza a dança e os produtos eróticos para ajudar a quebrar tabus femininos. Confira:

Como começou a sua história com a dança e em que momento a dança sensual entrou na sua vida?
Faço aulas de dança desde os 4 anos de idade – já fiz ginástica artística, balé e dança de salão. Mas a dança sensual só entrou na minha vida mais tarde, quando abri o sex shop. Inicialmente, veio como uma demanda para chás de lingerie, por conta dos pedidos de noivas e madrinhas para ensinarmos algo a mais. A partir daí, comecei a pesquisar e estudar danças sensuais.

Meu primeiro contato com a dança sensual foi uma aula de strip tease. Até então, não sabia como poderia dançar de forma sensual para alguém, e vi que não era nenhum bicho de sete cabeças. Empoderei-me daquilo e fui buscar outras modalidades. Fiz quase dois anos de pole dance e gostava muito e por fim me especializei em danças solo e com cadeira.

Como surgiu a ideia de criar o Meu Momento Íntimo? Como funciona e quais os principais objetivos do projeto?
Primeiro criei um curso presencial, por conta da demanda das clientes do sex shop. O on-line veio quando eu comecei a postar sobre as aulas no meu Instagram e mulheres de outras cidades demonstraram interesse. Entrei em contato com uma amiga que tem uma produtora de vídeo e ela deu a ideia de fazer o curso e vender. Temos aulas que duram em média 20 minutos. A intenção com o projeto é transformar mulheres, para que se tornem mais poderosas, fortes, firmes e, principalmente, donas da própria sensualidade e sexualidade.

É importante mostrar que existe um tipo de sensualidade para todas, até mesmo as mais tímidas. As mulheres têm que se permitir conhecer a própria sensualidade e exercê-la, livres de quaisquer preconceitos. Dentro da minha aula não tem certo e errado, tem o que funciona para você e o que não funciona. Devemos abraçar nossas diferenças e singularidades, além de usá-las da melhor forma possível.

Quais modalidades de dança sensual você ensina e como funcionam as aulas?
Ensino burlesco, strip moderno, chair dance e lap dance. O burlesco é uma coisa mais Moulin Rouge, com corset, meia sete oitavos, cinta-liga, penas e plumas. A gente passeia por uma era mais clássica, que vai de Paris dos anos 1920 até as pin-ups dos anos 1950, 1960. Nas aulas, ensino a vestir e a tirar cada peça. Fazer isso durante a dança é um desafio.

O strip moderno é mais focado no estilo dos anos 1980, 1990. Através desses movimentos, trabalhamos a linguagem de corpo, a expressão corporal e facial adaptadas ao mundo moderno.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Burlesco é a união do teatro, com sedução. Atualmente essa arte mescla elementos de vários estilos de dança. O que me faz amar ainda mais este estilo, é a diversidade. No universo burlesco não existe o “biotipo” ou “corpo ideal”. É uma dança democrática, que tem espaço para mim, para você, para as minas, monas, minos e pra qualquer um que topar se aventurar e curtir o embalo desse clima vintage bem ousado. Como toda dança tem sua característica principal, aqui não podem faltar plumas, pérolas, paetês, glamour e muita diversão! E aí, o que acha de se jogar comigo no striptease burlesco e descobrir dentro de você, uma persona incrível? Se permita redescobrir e se reinventar, se divertir e se empoderar. Tudo ao mesmo tempo. #meumomentointtimo #burlesco #burlesque

Uma publicação compartilhada por Meu Momento Inttimo (@meumomentointtimo) em

Ainda que a maior procura seja feminina, você também dá aula para homens? Os benefícios para eles são os mesmos que para as mulheres?
Sim, mas, até hoje, só tive uns cinco alunos. Ainda hoje, o homem que dança é um tabu, até mesmo para as mulheres. Mas os benefícios são os mesmos, só a forma de dançar que é um pouco diferente. Nós temos um movimento mais sinuoso, e os homens são mais fortes, então a dança deles costuma ser mais marcada. Acho muito justo que, tanto em relações hétero quanto em gays, os homens dancem para o(a) parceiro(a).

E na sua vida, o que mudou com a adoção de uma nova forma de lidar com a sexualidade?
Quando comecei a trabalhar com produtos eróticos, em 2013, tinha um conhecimento muito superficial dos produtos e do que eles podem fazer por mim. O meio me trouxe uma segurança maior da minha sexualidade e das minhas vontades, além de abertura no casamento, em relação a falar o que eu quero ou não. O que mais mudou com a dança foi minha autoestima, fez com que eu me amasse muito mais.

Ano passado, você participou do programa Me Deixa Dançar, do GNT. Como foi a experiência?
Para mim, foi um aprendizado diário de tudo, tanto de experiência com televisão, como de improviso e relacionamento com diversos profissionais do meio artístico. Lá, eu também pude falar sobre os sex toys, então acredito que tenha contribuído para o rompimento de uma ideia errada que as pessoas possam ter sobre mulheres que trabalham com produtos eróticos. É importante para quebrar a relação que fazem entre erotismo e vulgaridade.

0

Ainda há preconceito e moralismo sob a dança sensual e mulheres que falam abertamente sobre sexualidade?
Sim, muito. Em todos os níveis, e muitas vezes das próprias mulheres. Começa com as ideias de que elas não precisam disso porque já têm uma vida sexual boa em casa, ou que já são seguras o suficiente. Costumam acreditar que a dança é apenas sobre tirar a roupa, e é muito mais que isso, trabalhamos diversas esferas da vida das alunas.

Outra questão é o julgamento com o meu corpo, que não é padrão. Quando eu me apresento, muitas alunas vêm falar: “Nossa, você tem um corpo real, celulites, dobrinhas e gordurinhas e, mesmo assim, é sensual”. Isso reforça a ideia de que para ser sensual é preciso ser sarada, zero celulite, tudo em pé.

Existe uma “equação” para ser uma mulher empoderada, segura e feliz na própria pele? Como construí-la no dia a dia?
Eu não consigo desenhar elementos que te levem a isso. Acho que é necessário romper muita coisa que você ouviu desde criança sobre o que quer dizer ser mulher, feminina, bonita, e como você reforça isso atualmente. É muito difícil, mas acho que o principal elemento é a autoaceitação. Mesmo que tenha tido câncer e não tenha mais a mama, que seja careca, bem acima ou muito abaixo do peso, a autoaceitação é a chave para tudo. Primeiro você aceita seu corpo, depois você pensa o que quer fazer com ele.

Na sua opinião, qual a importância dos sex toys no relacionamento? As mulheres têm estado mais abertas a explorar e descobrir o próprio prazer e orgasmo?
Acredito que os sex toys vêm para dar segurança e quebrar a rotina. Na minha opinião, eles não salvam nenhuma relação, apenas agregam e melhoram.

As mulheres estão mais abertas a descobrir e explorar o próprio prazer, não só o orgasmo, mas o prazer em si, o caminho até ele. Sinto que estão mais sinceras sobre o que elas querem para os próprios corpos.

Quais são os planos de projetos para 2020?
Fui selecionada para fazer uma apresentação no festival Yes, Nós Temos Burlesco, que será realizado em maio, no Rio de Janeiro, e é o maior da América Latina. Sempre fui uma admiradora do festival. Este ano, me inscrevi despretensiosamente e fui selecionada, então estou muito feliz.

Eu e minhas alunas do Meu Momento Íntimo vamos nos apresentar no espetáculo brasiliense Etno Folk, que deve acontecer ainda no primeiro semestre. Por fim, pretendo relançar meu curso on-line e continuar empoderando mulheres, rompendo tabus e mostrando um corpo real.

 

Mais lidas
Últimas notícias