Procurador diz que fala de Camargo pode ser “caracterizada como racismo”

MPF encaminhou pedido para que a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão assuma a investigação

atualizado 04/06/2020 21:21

Sérgio Camargo sorri ao lado do presidente Jair BolsonaroFoto: Twitter

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do Ministério Público Federal (MPDF) pediu, nesta quinta-feira (04/06), que a Procuradoria Regional no DF assuma a investigação que apura as falas preconceituosas do presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo.

O pedido ocorre horas após entidades acionarem a PFDC cobrando apurações sobre as declarações de Camargo. Segundo o MPF, no documento encaminhado para a regional, o procurador federal Carlos Alberto Vilhena pontua que a fala do presidente da fundação pode ser caracterizada como “improbidade administrativa e também racismo”.

Em paralelo às investigações conduzidas pelo MPF, a Polícia Federal também apura a denúncia de racismo e discriminação religiosa apresentadas contra Camargo.

Inicialmente, o caso havia sido registrado pela Delegacia Especializada em Crimes por Discriminação Racial e Religiosa (Decrin) da Polícia Civil do DF (PCDF). Isso porque a mãe de santo Adna dos Santos, liderança de religiões de matrizes africanas no DF, foi chamada de “macumbeira” e “filha da puta” por Camargo e registrou ocorrência na especializada.

De acordo com Ângela Maria dos Santos, delegada-chefe da Decrin, todos os supostos crimes foram cometidos enquanto Camargo exercia um cargo no governo federal. “A reunião ocorreu dentro de um órgão federal e ele atuava como um servidor federal. Por isso, ficará com eles [PF]”, destaca. A principal demanda da investigação, ela diz, é confirmar a veracidade dos áudios.

Ângela destaca, no entanto, que todo o procedimento necessário foi realizado dentro da especializada. “A importância do acolhimento e de saber ouvir as pessoas em casos como esse é muito importante”, afirma.

Além da Decrin, Mãe Baiana, como Adna é conhecida, denunciou o caso ao Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios, que já tinha recebido representação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa. Ela foi ouvida na tarde desta quinta-feira (04/06) no Núcleo de Enfrentamento à Discriminação (NED) do MPDFT. Contudo, os promotores ainda não sabem se o caso será apurado no âmbito local ou no Ministério Público Federal (MPF).

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“Tudo me abalou muito”, diz Mãe Baiana

“Sempre lutei contra a discriminação, trabalhei quase quatro anos na Fundação Palmares. Tudo me abalou muito psicologicamente e mexeu com minha saúde mental, mas preciso me levantar e lutar.” A declaração, em tom de desabafo, é de uma das ialorixás mais respeitadas do Distrito Federal.

Conforme contou Adna ao Metrópoles, ela só soube do ataque na noite dessa terça (02/06). Após um dia de trabalho, alguns amigos começaram a avisá-la de que teria sido citada nas reclamações de Camargo. “Quando soube, tomei um susto muito grande. Receber essas palavras de uma pessoa que nunca vi e não conheço foi surpreendente”, comenta.

Sentindo-se atacada como mulher preta e líder de religião de matriz africana, a mãe de santo decidiu denunciar (fotos abaixo) o homem que proferiu os xingamentos. Apesar de ter sido alvo de ofensas, Adna prefere não responder a Camargo e apenas lamenta o ocorrido. “É muito difícil isso, me sinto muito mal. Foi uma fala infeliz e espero que Deus ilumine a mente dele para pensar no que disse”, finaliza.

Terreiros sem verba

No áudio, após se referir a mãe de santo como macumbeira, Camargo avisou que não daria verba para terreiros, numa alusão aos locais onde ocorrem os rituais de candomblé e outras religiões de matriz africana. “Tem gente vazando informação aqui para a mídia, vazando para uma mãe de santo, uma filha da puta de uma macumbeira, uma tal de Mãe Baiana, que ficava aqui infernizando a vida de todo mundo”, disse.

“Não vai ter nada para terreiro na Palmares enquanto eu estiver aqui dentro. Nada. Zero. Macumbeiro não vai ter nem um centavo”, garantiu Camargo.

Em outro trecho da gravação, ele trata com desdém a cultura afrodescendente. “Eu não vou querer emenda dessa gente aqui. Para promover capoeira? Vai se ferrar”, esbravejou.

Ouça: 

Entenda o caso

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, classificou o movimento negro como “escória maldita”, que abriga “vagabundos”, e chamou Zumbi de “filho da puta que escravizava pretos”. A portas fechadas, Camargo também manifestou desprezo pela agenda da Consciência Negra, xingou Mãe Baiana e prometeu botar na rua diretores da autarquia que não tiverem como “meta” a demissão de um “esquerdista”.

As afirmações do presidente da Fundação Palmares foram feitas durante reunião com dois servidores da entidade, no dia 30 de abril. O Estadão teve acesso ao áudio da conversa e apurou que o encontro ocorreu, na tarde daquele dia, para tratar do desaparecimento do celular corporativo de Camargo. Ao ser cobrado do ressarcimento do telefone, ele ficou irritado e alegou que o aparelho sumiu no período em que estava afastado do cargo, por decisão judicial.

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Procurado por meio da assessoria de imprensa da Fundação Cultural Palmares (FCP), Sérgio Camargo lamentou a “gravação ilegal de uma reunião interna e privada”. Ele ainda reiterou que a Fundação, em sintonia com o governo
federal, “está sob um novo modelo de comando, esse mais eficiente, transparente, voltado para a população e não apenas para determinados grupos que, ao se autointitularem representantes de toda a população negra, histórica e deliberadamente se beneficiaram do dinheiro público”.

“Infelizmente ainda existem, na gestão pública, pessoas que não assimilaram esta mudança e tentam desconstruir o trabalho sério que está sendo desenvolvido. Seguimos firmes em prol do Brasil e dos brasileiros”, completou.

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