No combate à Covid-19, servidores da Saúde do DF recebem máscara sem filtro

Segundo profissionais, item não cumpre determinações da Anvisa e ameaça saúde dos trabalhadores na linha de frente

atualizado 29/05/2020 10:09

Servidores da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) denunciam a qualidade dos equipamentos de proteção individuais (EPIs) fornecidos pela pasta aos profissionais que atuam diretamente no tratamento de pacientes com o novo coronavírus.

Em um vídeo gravado por um servidor e obtido pelo Metrópoles, o profissional reclama que a máscara de proteção do tipo N95, supostamente entregue pela pasta, não cumpre os requisitos determinados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os itens aprovados pela Anvisa devem conter três capas protetoras intercaladas entre dois filtros para que garanta a segurança dos profissionais de saúde.

Ocorre, no entanto, que a máscara usada pelos médicos e enfermeiros da saúde pública do DF estaria sendo entregue sem qualquer filtro de ar, apenas revestido com tecido de TNT.

Veja o vídeo: 

 

À reportagem, uma servidora, que não quis se identificar, relatou, ainda, que as irregularidades do material fornecido não estão restritas à maneira de confecção do acessório. Segundo ela, estão sendo entregues sem a correta embalagem.

“Elas deveriam ser embaladas uma a uma, o que não ocorre. Outra coisa, o elástico não é ajustável; então, não temos como fazer a vedação correta. Estamos com máscaras que não têm capacidade de filtragem conforme a Anvisa recomenda”, denunciou a funcionária da pasta.

Segundo a denúncia, os lotes com as máscaras irregulares foram entregues em unidades públicas de saúde da área central de Brasília. Entre os locais, estão o Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib) e o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) – referência no tratamento de pacientes de Covid-19 no Distrito Federal.

A profissional afirma que, após denúncia de servidores do Hran, a pasta decidiu recolher parte dos aparatos distribuídos no hospital.

Profissionais em risco

A infectologista Ana Helena Germoglio, do Hospital Águas Claras, reforça que a má qualidade das máscaras de proteção usadas por profissionais de saúde ampliam o risco de contágio pelo novo coronavírus.

“Quando você utiliza uma máscara e ela não te protege, você aumenta o risco de contaminação. E, em uma pandemia, a primeira urgência é sempre a proteção do profissional de saúde”, adverte a especialista.

Ana Helena explica quais elementos podem indicar se a máscara N95 usada pelo profissional está em conformidade com as normas. “As máscaras do tipo N95 são usadas somente em ambiente hospitalar e protege os profissionais contra aerossol. Então, são os equipamentos mais seguros para uso de médicos e enfermeiros”, explica.

“Normalmente, esses equipamentos são feitos com cinco camadas, que promovem a filtração adequada do ar. As máscaras contêm um aro fixo de metal na parte de cima, este aro é utilizado para promover a perfeita vedação da máscara”, detalha a infectologista.

Por fim, a médica recomenda que o profissional encaminhe, antes do uso, o aparato de proteção para análise do controle de infecção do hospital.

“Já recebi máscaras doadas em que este metal, que deveria ser fixo, caía quando o equipamento era aberto. Ou então, equipamentos cujo tecido de fabricação estava em desacordo com o determinado. Por isso, se você tem dúvida ou desconfia, recomendo que procure o serviço de controle de infecção do hospital para garantir sua segurança”, finalizou Ana Helena Germoglio.

Em vistoria ao Hospital Regional de Taguatinga (HRT), o Sindicato dos Médicos do DF (SindMédico-DF) afirma ter flagrado profissionais de saúde com máscaras fora dos padrões de segurança.

Outro lado

Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria de Saúde disse que testa todas as máscaras doadas, compradas e recebidas. Segundo a pasta, os equipamentos que não são aprovados pelo Conselho de Infecção Hospitalar “não são distribuídos aos profissionais de saúde”.

Depois, a pasta publicou nota afirmando que nenhuma das máscaras do modelo N95 mostradas no vídeo foram compradas pela Secretaria de Saúde, ou mesmo doadas à pasta. “Todas as máscaras N95 adquiridas pela Secretaria de Saúde durante a pandemia são da cor branca, diferente das apresentadas no vídeo, que são azuis”, diz a publicação. No entanto, a reportagem também recebeu vídeo em que aparece um equipamento da cor branca.

“As máscaras N95, compradas ou recebidas em doação, passam por um processo sistemático de avaliação para garantir que atendam as normas técnicas vigentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, garante a pasta.

 

 

 

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