Black Lives Matter: o papel da indústria cultural na luta antirracista

O mercado cinematográfico ainda é dominado por pessoas brancas. Apesar disso, cresce a representatividade negra na cultura mundial

atualizado 05/06/2020 20:14

Olhos que condenamNetflix/Divulgação

O movimento Black Lives Matter — vidas negras importam— voltou a ganhar força na última semana com a morte de George Floyd, norte-americano vítima do racismo e da brutalidade policial. Longe de ser um pleito novo, a luta antirracista, amplificada pela sociedade nas ruas e nas mídias digitais, vem impondo um realinhamento global na indústria cultural.

A arte, em especial a audiovisual, pode ser um potente canal de denúncia da violência e exclusão. Desde 2013, quando o movimento Black Lives Matter foi formado, à época, uma reação à absolvição do vigia George Zimmermann, então acusado de assassinar o adolescente negro Trayvon Martin, percebe-se um crescente do protagonismo negro na cultura.

Nos últimos cinco anos, diretores e roteiristas negros passaram a ser reconhecidos nas principais premiações do cinema mundial. Steve McQueen (12 Anos de Escravidão), Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar), Jordan Peele (Corra!), Ryan Coogler (Pantera Negra) e Spike Lee (Infiltrados na Klan), são alguns do que levaram uma ou mais estatuetas do Oscar.

A população negra também tem conquistado representatividade nas séries. Na Netflix, a prestigiada Olhos que Condenam, da diretora Ava DuVernay, Ela Quer Tudo, de Spike Lee, e a aclamada Cara Gente Branca, de Justin Simien, estão entre os destaques.

 

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Mesmo com as recentes conquistas, o mercado cinematográfico ainda está longe da igualdade racial. O Relatório de Diversidade de Hollywood 2020, realizado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), revela a escassez de negros e mulheres na direção, edição e postos executivos: 93% de todos os cargos de alto nível são ocupados por pessoas brancas, e 80% são homens.

No Brasil, a pesquisa mais recente feita pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) foi divulgada em 2019. O levantamento de dados feito pela Superintendência de Análise de Mercado sobre raça e gênero dos participantes dos Editais do Fundo Setorial do Audiovisual em 2018 mostra que apenas 5,7% do total de projetos inscritos eram de diretores e diretoras que se declaram pretos.

Fernanda Jacob como Dona Ivone Lara
Fernanda Jacob como protagonista do musical Dona Ivone Lara — Um Sorriso Negro
Retrato estereotipado

O resultado da supremacia branca na indústria cultural é a persistência de produtos que reproduzem estereótipos e reforçam as bases do racismo estrutural, conforme explica ao Metrópoles a atriz e musicista Fernanda Jacob. “A gente ainda caminha para a desconstrução disso, mas são poucas as produções que tratam de temáticas negras, com pretos como protagonistas, que conseguem grande audiência”, afirma.

Segundo a artista brasiliense que, entre muitos importantes trabalhos, já interpretou a matriarca do samba no musical Dona Ivone Lara — Um Sorriso Negro, o próprio brasileiro ainda tem o olhar voltado para a cultura e estética europeias. “Uma população muito colonizada e que não quer saber da sua própria história. O que faz com que algumas produções não apostem em histórias pretas”, completa Jacob.

Para a atriz, é de extrema importância que atos de violência policial, como os ocorridos com o adolescente João Pedro, 14 anos, e tantos outros no Brasil, sejam retratados com urgência pela indústria cultural. “Mas eu não vou ser inocente de dizer que isso será feito por produções brancas. Com certeza, em sua maioria, por produções pretas, pois nós sabemos diretamente o que é ser perseguido pela classe policial”, pondera.

Políticas públicas

De acordo com Bruno Victor, roteirista, diretor e curador, membro da Associação de Cinema Negro, o racismo institucional somente será combatido por meio de políticas públicas eficientes. “Sejam elas estabelecendo cotas de produções voltadas à cultura afro-brasileira, na inserção de profissionais negros no audiovisual, no enrijecimento das leis antirracismo e no cumprimento, de fato, da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas”, pontua.

Bruno Victor considera, ainda, a necessidade de o conceito de representatividade ultrapassar as telas. “Precisamos ter um número significativo de realizadores negros produzindo suas próprias narrativas e com acesso democrático aos equipamentos públicos do audiovisual”, ressalta.

Alex Vidigal, professor de audiovisual da Universidade Católica de Brasília (UCB), constata que o Brasil tem artistas que pensam e buscam essa desconstrução cultural de forma gloriosa, o que tem feito o país evoluir, mesmo que lentamente. “Existe hoje o imaginário negro numa indústria cultural mais interessante de protagonismo, mas ainda engatinhando”, conclui.

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