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Casa de Vera Brant poderia ser polo cultural, mas está abandonada

O lugar, que recebeu nomes como Tom Jobim, Juscelino Kubitschek e Darcy Ribeiro, está sem cuidados desde 2015

Arquivo pessoal
Paulo Lannes
 

Brasília pode perder uma das residências mais importantes da cidade. Localizada na QI 19 do Lago Sul, a chácara de Vera Brant, uma das pioneiras e principais personalidades da capital, encontra-se abandonada desde 2015 – e não há perspectivas de que ela volte à ativa. Vera morreu aos 87 anos em setembro de 2014, após passar dois anos lutando contra um câncer na faringe.

Quem passar diante da chácara, localizada em um terreno de 11 mil metros quadrados, dificilmente reconhecerá o local que um dia recebeu grandes nomes da cultura e da política nacional, como Tom Jobim, Alfredo Ceschiatti, Fernanda Montenegro, Tônia Carrero, Jorge Amado, Zélia Gattai, Dorival Caymi, Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Mário Covas, José Sarney e Darcy Ribeiro.

O ambiente, antes dominado por festas, abriga uma triste varanda sem mobília e repleta de sujeira, além de uma piscina totalmente vazia, cheia de folhas e terra. Sem qualquer segurança – até mesmo o portão da rua e a porta principal da casa estão destrancados –, qualquer pessoa pode se aventurar pela casa e conferir o que ainda resta da memória de Vera Brant.

Tombamento
Em 2009, o empresário José Celso Gontijo adquiriu o imóvel durante processo de falência da amiga Vera. Em comum acordo, ele permitiu que ela permanecesse na casa até a data de sua morte. Quando isso ocorreu, deu alguns meses para seu sobrinho Leo Brant retirar as coisas da residência, colocando-a à venda logo em seguida. O sonho de um instituto cultural ficou para trás.

Ao Metrópoles, a empresa de Gontijo afirmou ter vendido a casa. O imóvel era avaliado em R$ 4 milhões, mas o negócio foi fechado com valor inferior. No entanto, vizinhos duvidam que alguém tenha comprado a residência, pois nunca viram nenhuma pessoa por lá. Acreditam que está em curso uma política de desvalorização do patrimônio para dividir o terreno e aumentar o lucro da operação.

A situação de abandono da casa mobilizou a cena cultural da cidade. O arquiteto e ex-curador dos palácios do Planalto e Alvorada Rogério Carvalho resolveu reunir detalhes sobre a história do lugar para entrar com pedido de tombamento na Secretaria de Cultura do Distrito Federal ainda na segunda-feira (2/10). A ideia é reavivar o projeto de transformar o local em um instituto cultural.

“É um patrimônio da cidade que merece, sim, ser preservado”, afirma. Apesar de não ter frequentado a chácara em seu auge, Rogério afirma que os ensinamentos de Vera sobre arte foram essenciais em sua formação. Ele também criou o Prêmio Vera Brant, que concedeu R$ 33 mil em prêmios a artistas de Brasília em 2014, de forma a homenageá-la e manter sua memória viva na capital.

Esquecimento
Apesar de não haver mais móveis de assinatura nem obras de arte – que incluíam anjos de bronze de Ceschiatti, móveis de Zanine e telas de Athos Bulcão, Carlos Bracher, Glênio Bianchetti, Carlos Scliar e Rubem Valentim –, é possível reconhecer o passado glorioso da casa.

A sala de estar, por exemplo, tem uma arquitetura peculiar, com piso que desemboca numa gigantesca lareira. Também dá para reconhecer estruturas em madeira realizadas por Zanine Caldas, um dos principais artistas de mobiliário e paisagismo do país – que também frequentava o local.

Com o objetivo de manter viva a memória de Vera, o turismólogo Leo Brant, 53 anos, criou um site que traz fotos e textos sobre sua tia. Em entrevista ao Metrópoles, ele diz que vê com pesar a lenta destruição da casa.

Vera Brant tinha um verdadeiro carinho pela chácara do Lago Sul. Ela tinha um sonho de que, depois de morta, a chácara fosse utilizada como instituto educativo e cultural"
Leo Brant

Leo morava na chácara da QI 19 com Vera desde 1978. “A casa foi um ambiente de decisões políticas e ponto de encontro da intelectualidade atual nos anos 1980 e 1990”, explica.  A fama do lugar era tanta que chegou a servir de locação para algumas cenas do filme “Memórias do Medo” (1981), dirigido por Alberto Graça e estrelado por  Xuxa Lopes e Cláudio Marzo.

Vera Brant
Inspetora de ensino no Ministério da Educação, Vera Brant foi uma das responsáveis pela criação da Universidade de Brasília (UnB). Durante a ditadura militar, ela ajudou políticos, exilados e intelectuais a escaparem dos censores – sendo ela mesma perseguida pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em 1970.

 

 

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