Quatro razões para conferir a peça Os Saltimbancos, de Hugo Rodas

A peça, baseada em versão de Chico Buarque, segue em cartaz até 4 de agosto no CCBB de Brasília

atualizado 04/10/2019 21:33

Diego Bresani / Divulgação

“Nós, gatos, já nascemos pobres. Porém, já nascemos livres. Senhor, senhora ou senhorio…”. Aposto que você ficou tentado a completar a canção, um marco do espetáculo Os Saltimbancos, que segue em cartaz no CCBB Brasília até 4 de agosto. História de Uma Gata, assim como as demais músicas da montagem original, está embalando uma nova geração de espectadores brasilienses que lotam a sala do centro cultural para conhecer a clássica trilha, sucesso no país desde que a versão de Chico Buarque estreou nos palcos brasileiros em 1977. Naquele mesmo ano, inclusive, também surgia a montagem brasiliense do texto, dirigida pelo uruguaio-candango-oráculo Hugo Rodas. Pois 42 anos depois, aos 80 anos de idade, ele volta a dirigir o trabalho, protagonizado pelos inquietos, barulhentos e talentosos integrantes da Agrupação Teatral Amacaca (ATA). Seguem quatro razões imediatas, no meu ponto de vista, para conferir o espetáculo.

Para todas as idades

Embora muitos pais estejam dando as caras no CCBB com a desculpa de levar os filhos, são eles que se emocionam e cantam de cabo a rabo as canções do espetáculo – voltado para o público infantil, mas nem por isso desaconselhado à plateia adulta. Muitos aproveitam para matar as saudades e relembrar faixas que marcaram a infância e, de quebra, ainda prestam enorme serviço não somente ao apresentar os filhos à obra de Chico Buarque mas também, principalmente, ao incentivarem o gosto pelo teatro.

Chico Buarque

O compositor carioca não se tornou figura central da cultura brasileira somente por causa das posições políticas, mas sobretudo a partir da genialidade artística. Beira o clichê, mas Chico traduziu em canções e crônicas a realidade de um país formado por Marias e Franciscos, de uma forma que todos pudessem assimilar e se encantar. De alguns anos para cá, em razão da segregação que acomete o país, o músico se tornou mero sinônimo de “esquerdopata” para parte da população. Pois Chico transgride qualquer política, emociona ao falar do brasileiro comum, faz poesia com o trágico e nos convida a repensar o cotidiano dessa roda-vida. Os Saltimbancos pode ser um convite a (re)descobrir Chico.

O elenco

A moçada do ATA é sangue nos olhos. Pense em artistas dispostos a tudo para te arrancar da poltrona! A justificativa de que “espetáculo infantil” exige menos do artista nem passa por aqui. Pelo contrário: arrebatar uma plateia de crianças é dos maiores estímulos do teatro, já que os pequenos perdem o interesse à toa e se revelam espectadores exigentes. E aí, qual o desafio do elenco? Garantir que os pequenos nem sequer pisquem. E eles dão conta do recado. Literalmente se jogam com unhas e dentes no palco e ocupam cada centímetro da sala. É impossível não se emocionar com a entrega. (Os dedos coçam para listar minhas atuações prediletas, mas seria injusto não celebrar o trabalho conjunto, que responde pelo desempenho).

Hugo Rodas

Senta que lá vem a maior descrição que possivelmente já escrevi em uma matéria – e ainda estará incompleta. O diretor-coreógrafo-ator-dançarino-mestre-professor-figurinista-cenógrafo-agitador-desvairado-provocador-oráculo-octogenário Hugo Rodas – nascido no Uruguai, mas patrimônio cultural de Brasília desde sempre – é uma das maiores forças do teatro brasilense. Vencedor de uma cacetada de prêmios e consagrado como um dos grandes nomes do DF, Hugo é sempre uma boa acordada na alma. Ninguém sai indiferente.

Arquivo
Primeira versão de Os Saltimbancos, do grupo Pitú, com direção do incansável Hugo Rodas

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