172.16.1.217 ip-172-16-1-217 hom.metropoles.com Isabella Borges: em 3 dias seu ex-marido passou de amigo a assassino – Metrópoles

Uma arma estava apontada para a cabeça de Isabella, seus filhos gêmeos agarravam seu corpo. A menina nos braços, o menino no chão, abraçado à sua perna. Ela teve tempo de falar duas frases quando a irmã Rosana a acudiu no quarto, assustada: “Eu que abri a porta para ele”, disse, referindo-se ao ex-marido, Matheus. E em seguida: “Cuida deles”.

“Tira as crianças daqui, você está me atrasando!”, disse o homem. Rosana obedeceu a ordem do ex-cunhado. Ela levou o sobrinho para o quarto, ao mesmo tempo que tentava, desnorteada, fazer uma difícil escolha: voltar para pegar a sobrinha ou deixá-la com a mãe para Matheus não matar Isabella.

Nem terminou de pensar e ouviu um estouro. Depois, outro. Chegou à sala e encontrou Isabella morta com um tiro no rosto. Na frente dela, o vigilante Matheus Cardoso Galheno, de 22 anos, agonizava, procurando ar. Ele morreu em seguida. No chão, de pé, uma bebê de um ano, de olhos bem redondos e cachinhos dourados. Órfã de mãe e pai, assim como o irmão gêmeo no quarto vizinho.

Stories da Isabella

O diálogo antes de morrer revela um pouco de quem foi Isabella Borges de Oliveira, 25 anos. Corajosa e forte, assumiu que deixou seu assassino entrar em casa. Teve a preocupação materna de, sob a mira de uma arma, pensar primeiramente nos filhos.

As pessoas entrevistadas ao longo desta reportagem tinham muito para falar de Isabella. Todos mostraram uma foto da docente sorrindo. Nas imagens, é possível ver uma jovem segura de si, vigorosa e linda.

A educadora era a segunda filha de uma família de muitas mulheres. “Minha mãe era louca por ela”, diz, sem qualquer traço de ciúme no olhar, a irmã mais velha da vítima, Rosana Borges de Oliveira, 48. Após a morte da matriarca, seis anos atrás, a servidora pública acolheu Isabella em casa. Como agradecimento, ela tatuou o nome de Rosana no braço.

Isabella e o irmão João eram adolescentes nessa época e terminaram de crescer junto com as filhas de Rosana, que tinham a mesma faixa etária. Uma casa de quatro quartos no Paranoá abrigava a grande família. Quando Isabella engravidou e decidiu morar com Matheus, o espaço passou a ser dele também. Nas palavras da primogênita: “A gente deu uma arrochadinha”.

O rapaz foi muito bem-vindo. “Não posso mentir, eu gostava bastante dele. Os dois tinham uma relação boa, conversavam sempre. Ele era um cara bom, prestativo, gentil, legal. Quando veio morar aqui em casa, arregaçou as mangas, ajudava e respeitava a minha vontade”, conta Rosana.

Árvore geneológica

Matheus e Isabella se conheceram numa festa de aniversário de amigos em comum, no Grande Colorado. “Ela quis ficar com ele”, revela a auxiliar administrativo Kelly Rocha, 25 , melhor amiga da vítima desde a época da escola. “A gente falava: ‘O que você quer com esse menino? Ele é muito novo!’, mas ela não dava bola, encantou-se por ele”.

O rapaz franzino era três anos mais novo do que a moça exuberante de sorriso largo – e um pouquinho mais baixo. Isabella era evangélica da Assembleia de Deus, cantava na igreja. No ano passado, já mãe, formou-se em Pedagogia pela Universidade Paulista (Unip). Esperava ser chamada no concurso de professora da Secretaria de Educação. Queria morar no Guará. Matheus trabalhava como vigilante noturno em uma lanchonete na Asa Norte.

A vida do casal girava mais em torno da família de Isabella. “Os pais dele deram pouco apoio”, conta a amiga Kelly. O pai do rapaz é policial militar. Eles não quiseram dar entrevista.

Quando os bebês tinham dois meses, Isabella foi chamada como professora substituta em uma escola do Paranoá. Propôs que o marido ficasse em casa tomando conta das crianças, pois o salário dele equivalia à mensalidade de uma creche. Ele topou.

Arquivo Pessoal
Certo dia, Matheus deu um apertão no braço da filhinha, deixando a marca dos dedos na criança. Isabella foi para cima do então marido e bateu nele

“Eu me preocupei”, comenta Rosana. “Mãe aguenta, mas homem acaba enchendo o saco”, pontuou. A situação durou alguns meses: Isabella ia trabalhar e o companheiro cuidava da casa e das crianças. E ali não faltava serviço.

Espertos, os gêmeos começaram a andar cedo, com menos de 10 meses. Como todo bebê, queriam mexer em tudo. “Matheus começou a dar uns tapinhas nas crianças, isso me incomodou”, lembra Rosana. “Chamei Isabella para conversar. Os meninos viviam com o bumbum e os braços vermelhos. Ele estava muito cansado, mas não é por aí”, relata.

Em um dia, no final de 2018, Matheus deu um apertão no braço da filhinha, deixando a marca dos dedos. Isabella foi para cima e bateu no então marido.

“Saia daqui, senão eu vou fazer uma covardia”

Matheus Cardoso Galheno, feminicida

Os dois brigaram e Isabella resolveu se separar. A irmã achou a decisão precipitada, o casal se dava bem. A melhor amiga não se surpreendeu muito: “Isabella era assim mesmo, firme”.

Janeiro começou com os dois separados e Isabella determinada a encontrar um novo trabalho, o contrato temporário com a Secretaria de Educação tinha acabado. Procurou a antiga chefe na empresa de comunicação onde havia feito estágio.

Waldelice Rodrigues, jornalista de 32 anos, lembra que, por sorte, tinha um cargo aberto, a cara de Isabella. “Era um trabalho difícil, de instigar e convencer jornalistas. Ela sempre foi questionadora, curiosa e se destacava das outras”, ressalta. Mas tinha um problema: a vaga era de estágio e Isabella já estava formada. “Ela resolveu isso rapidamente. Voltou a estudar para poder se candidatar. Inscreveu-se em um curso de marketing, levantou todos os documentos e, no dia seguinte, estava contratada”, disse.

Com a separação, Matheus foi morar na casa dos pais, na 411 Norte. Mas, ainda assim, não saiu da rotina da família de Isabella. Diariamente, levava a ex-mulher ao estágio e passava a manhã com os filhos. No meio da tarde, deixava os três de volta em casa, no Paranoá.

“Ela era ótima no trabalho e estava superfeliz. Chegava todo dia às 8h da manhã maquiadíssima, linda. Eu brincava: ‘Você passa batom até para ligar para jornalista’”, conta a ex-chefe.

Na última semana de março – e de vida de Isabella, ela sorria mais do que o habitual. “Conheci um boy”, revelou para a irmã. Um colega de estágio. A amiga Kelly também ouviu sobre o rapaz: “Os dois estavam se conhecendo, ela se mostrava muito entusiasmada”.

Na quinta-feira, 28 de março, desconfiado, Matheus mentiu. Disse que ia se atrasar para buscá-la na parada de ônibus perto do estágio porque queria cortar o cabelo. Chegou na hora de sempre e ficou dentro do carro.

Viu Isabella com o colega. Eles estavam sentados em um banquinho. Nem de mãos dadas, nem se beijando, apenas conversando. Matheus desceu do carro, pegou o celular e começou a filmar.

No vídeo, chama os dois de “vagabundos”. Agressivo, desfia o que lhe parece a suprema injustiça: “Eu cuidando dos filhos dela e ela aqui”. E provocou: “Olha a cara do bicho”. Isabella reagiu: “Matheus, para de ser ridículo. Cresce, babaca! Cresce!”.

Matheus exigiu que Isabella fosse embora com ele e as crianças. Os bebês estavam dentro do carro – sozinhos, a essa altura. Ela cedeu e voltou com o pai dos gêmeos para casa. O vídeo chegou ao celular de Rosana antes mesmo de a irmã aparecer. A servidora pública sentiu um mau presságio quando ouviu as cantadas de pneu. O casal teve mais uma briga. O vigilante deixou a ex-companheira no Paranoá e foi embora.

A irmã, a chefe e a amiga de Isabella ficaram preocupadas quando viram a violência de Matheus no vídeo. “Todo dia a gente vê notícia de feminicídio. Pedi para ela se afastar e não dar mais abertura”, lembra Rosana. Mas, segundo Waldelice, mesmo depois do episódio, a vítima minimizou: “Assim como eu, Matheus vai encontrar uma pessoa e será feliz”.

Tão certa estava disso que, na própria sexta-feira, depois do estágio, quis sair – a intenção era distrair um pouco. Como havia uma festinha de família na residência da melhor amiga, arrumou-se toda, pediu um Uber e partiu para São Sebastião com os dois filhos. Os três foram prontos para dormir no local. “Todo mundo aqui em casa era louco por ela, tinha muita gente para ajudar. O filhinho dela só dormia agarrado nela e a gente distraía a menininha”, relembra Kelly.

Arquivo Pessoal
Após a morte da mãe, seis anos atrás, Rosana acolheu os irmãos em casa. Como agradecimento, Isabella tatuou o nome da irmã no braço

Depois de passar parte do sábado com a amiga, Isabella voltou ao Paranoá a tempo de cuidar das roupas dos filhos e fazer uma maquiagem especial em Rosana, que tinha um casamento para ir.

Em conversa comigo, um mês depois do assassinato da irmã, Rosana tem cílios cuidadosamente alongados, dando acabamento a uma pálpebra pintada com perfeição. “Você se maquiou sozinha hoje?”, pergunto. “Agora tem que ser”, responde com tristeza.

Na noite daquele sábado, 30 de março, Rosana saiu pela última vez maquiada pelas mãos da irmã. Nesse dia, Isabella dormiu cedo. Acordou com o ex-marido na porta de casa. Às 9h30, estava morta.

O que choca amigos, familiares e especialistas na história de Isabella e Matheus é a falta de indícios importantes dessa violência. Em três dias, o rapaz passou de um comportamento tranquilo para o papel de assassino. Ele era considerado um bom ex-marido.

Sem poder ouvir dos pais do assassino algo que explique essa virada, procuro amigos de Matheus, colegas de trabalho. Na lanchonete onde ele era vigilante, conheci Jefferson da Silva Ferreira. Além de chefe do algoz de Isabella, estudou com o feminicida no ensino médio em uma escola pública de São Sebastião.

“Ele era um cara normal, legal, tranquilo. Nunca aparentou ser agressivo”, diz. Pergunto se ele tem alguma explicação para o feminicídio. “Era um amor grande que ele tinha pela mulher, não aguentou essa situação”. “E é amor, isso?”, pergunto. “É posse”, ele admite.

De acordo com a professora do departamento de psicologia clínica da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello, os homens no Brasil justificam parte dos feminicídios com esse conceito de “posse”.

“Matheus era um ótimo companheiro enquanto as coisas estavam do jeito dele. Quando viu que Isabella poderia desejar outro homem, não suportou”

Valeska Zanello, docente da Universidade de Brasília (UnB)

Segundo a especialista, é muito difícil para um homem brasileiro entender que ele não é o centro da vida de uma mulher. Nem sempre esse sentimento está relacionado a outro parceiro, pode acontecer também quando a companheira decide priorizar a carreira ou os filhos.

“As mulheres aprendem desde pequenas que não devem se colocar em primeiro lugar, mas os homens sempre se sentem prioridade”, explica. Repetimos o modelo e, tradicionalmente, a brasileira se concentra em ter um relacionamento, fazer parte de um casal.

“Muitas acabam se apaixonando por um homem que se interessou por elas. No nosso país, ser mulher, ou a legitimação do que é ser mulher, passa muito por ser escolhida”, explica.

Isabella parecia estar quebrando essa ideia de que só existia dentro de um casal. “Ela queria independência e percebeu que não precisava do Matheus para isso”, lembra Waldelice, colega de trabalho da vítima.

Segundo a amiga, o próprio romance com o estagiário não era sério. “Ela estava entre o espanto e o riso quando contou sobre o encontro com Matheus. E ainda comentou: ‘Agora, meu paquera não vai quer mais nada comigo, vai achar que ainda estou envolvida com o meu ex-marido’”, lembra a chefe Waldelice.

O machismo cortou suas asas. “Enquanto a relação funcionava como Matheus queria, estava tudo bem. A rejeição colocou a masculinidade dele em dúvida, apertou o botão identitário”, avalia Valeska. Ainda de acordo com a psicóloga, o vídeo gravado pelo assassino revela claramente o que ele reivindicava da relação.

“Quando Matheus pontua: ‘Eu estava cuidando das crianças dela’, vejo um indício de violência. Não, ele estava tomando conta dos filhos dele. Ali, Matheus já passa uma ideia de ‘Eu estou fazendo um favor – logo, ela me deve algo em troca’”, reflete a psicóloga.

“Ser mulher no Brasil é um fator de risco. Especialmente porque, como aconteceu com Isabella, vem crescendo na sociedade a percepção de que lugar de mulher é onde ela quiser”, lembra a coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos do Ministério Público do Distrito Federal, Mariana Távora. “Esses feminicídios nos fazem pensar sobre como o homem se movimenta diante dessa nova mulher”, salienta.

Para a promotora de Justiça, o remédio passa pela educação. “Os professores precisam abordar o tema, não em uma matéria, mas em todas. É necessário falar com crianças e adolescentes sobre as injustiças estruturais entre homens e mulheres e passar o conceito de que o corpo feminino não é objeto de exercício de poder”, sugere Mariana.

A coordenadora participou de um grupo de apoio criado pelo governo local para acompanhar homens autores de violência. Segundo a membro do MP, para muitos deles, aquele espaço foi o primeiro onde precisaram pensar sobre seus papéis na sociedade e expressar contradições.

“Precisamos mostrar que existem outros padrões de masculinidade possíveis, não há necessidade de dominar para existir. Os homens também devem se envolver na mudança de cultura, porque nesse ciclo cultural vicioso eles só escutam pessoas do mesmo sexo”, completa.

Na casa do Paranoá, Rosana segue a vida, envolvida na reforma do antigo quarto da irmã – a ideia é dar mais conforto para os gêmeos. Ela ainda não teve tempo de encarar a falta de Isabella: os pais de Matheus pediram na Justiça a guarda das crianças.

Carolina Nogueira

Carolina Nogueira

Formada em jornalismo e com pós-graduação em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Também fez mestrado em Literatura pela Sorbonne Paris IV, na França. Trabalhou no Correio Braziliense e no Jornal do Brasil antes de começar a cobrir o Congresso Nacional pela TV Câmara, onde trabalha há 14 anos. É autora e ilustradora de livros infantis: A Rua de Todo Mundo (2013) e A História de Você (2015). Ainda é co-fundadora do site Quadrado Brasília. Foi jurada do Gabo de Jornalismo, da FNPI, em 2017 e 2019.

Elas por elas

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

Até sexta-feira (7/6), 5.623 mulheres do DF já procuraram delegacias de polícia para relatarem abusos, ameaças e agressões que vêm sofrendo por parte de maridos, companheiros, namorados ou pessoas com quem um dia se relacionaram. Já foram registrados onze feminicídios. Segundo a polícia, apenas uma pequena parte das mulheres que vive situações de violência rompe o silêncio para se proteger.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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