Em Brasília, mãe de sete filhos conta como se vira na quarentena

Julyana Mendes Caiado revela os malabarismos que tem feito durante o isolamento social para manter as crianças entretidas e a casa em ordem

atualizado 19/04/2020 21:33

Daniel Ferreira/Metrópoles

A educadora parental Julyana Mendes Caiado, de 43 anos, está acostumada a ter a casa cheia, mas não de maneira ininterrupta como agora. Devido à pandemia do novo coronavírus, a brasiliense, o marido e os sete filhos estão confinados debaixo do mesmo teto há 34 dias.

“O tempo de convívio familiar dobrou. Os desafios da maternidade também”, conta a “mãe de sete”, como é conhecida nas redes sociais.

“Não passar a minha ansiedade para as crianças e saber lidar com as emoções afloradas delas de maneira individualizada são os meus maiores desafios na quarentena”, revela a educadora.

mãe de sete
Julyana Mendes Caiado, a @mãedesete

Os filhos de Julyana – três meninos e quatro meninas – têm idades entre 4 e 25 anos. “Estão todos em casa. Os mais novos devido à suspensão das aulas e o mais velho pela implementação do home office“, detalha.

“Cada um reage de maneira diferente às mudanças provocadas pela pandemia. Uns estão aflitos. Outros, amando passar os dias em casa na companhia dos irmãos”, destaca.

Rotina

Por ser estudiosa fervorosa da psicologia infantil, Julyana soube, logo que o fechamento das escolas foi anunciado, que precisaria estabelecer novos hábitos para os pequenos.

“Rotina é essencial para o bem-estar mental, ainda mais das crianças, em um momento tão delicado como este”, frisa.

Por isso, a educadora definiu algumas práticas diárias: de manhã, os pequenos tomam café e assistem às aulas virtuais. Em seguida, todos da família almoçam juntos e passam duas horas sem triscar no celular. Durante esse período off-line, eles brincam, leem ou assistem a um filme. Depois, é a hora das lições de casa, do banho e do jantar. Por fim, todos vão para a sua respectiva cama.

família
A família reserva duas horas por dia para realizar atividades em conjunto – sem o uso de celular

“A minha sorte é que moramos em uma casa com espaço para as crianças brincarem e liberarem energia. Como estão na companhia dos irmãos e contam com zonas de recreação, elas não se sentem tão confinadas”, pontua a mãe.

“Só tenho a agradecer por viver no meio de uma aglomeração”, brinca.

Segundo Julyana, outro fator que tem ajudado a manter a paz na residência é o controle de informações sobre a doença.

“Não assistimos aos noticiários perto dos pequenos e controlamos o que eles acessam on-line. Eles recebem as informações da pandemia filtradas por nós, os pais. Isso ajuda a não instaurar uma situação de pânico.”

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E eu só tenho a agradecer por viver no meio de uma aglomeração ??? Por aqui a gente não está pensando em dias sem escola e no conteúdo que possamos estar perdendo. Estamos focados no conteúdo que podemos aprender. . Estamos mais juntos, dividimos mais as tarefas, aprendemos a viver com os perfis super diferentes que existem aqui. . Fomos “treinar”, mudamos móveis de lugar, jogamos jogos que nunca tínhamos jogados, fizemos pão, chocolate quente e pipoca. . Hidratamos os cabelos, lavamos muita louça, limpamos muito chão, inventamos na cozinha. . Oramos, louvamos, agradecemos e pedimos saúde para os nossos e para o País. E alguns choraram quando a Palavra de Deus entrou. Todas as vezes tocou a gente. . Hoje depois que fizemos a live eu fui tocada para orar por uma amiga médica e sua família. Fiquei tocada com seu medo. E chorei e orei. A palavra que me veio foi Miquéias 7 (quem é de ler a Bíblia, leia). E depois o que senti foi: não é apenas sobre orar pelos outros, é cuidar da casa. Uma casa por casa, cada um cuidando da sua: ajustando onde está precisando ser ajustado. Por isso estamos isolados, por isso estamos assim: Ele está nos dando esse tempo e ainda dá tempo: olhe o que está fora do lugar, cuide dos seus. É esse o tempo. É essa a palavra. É esse o propósito. E esse tem sido meu maior conteúdo aqui dentro! Deus nos abençoe ? . Ah! Pode contar! Está faltando Pedro que não dormiu bem e não quis descer. . . “Quem é comparável a ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão do remanescente da sua herança? Tu, que não permaneces irado para sempre, mas tens prazer em mostrar amor. De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrarás fidelidade a Jacó, e bondade a Abraão, conforme prometeste sob juramento aos nossos antepassados, na antiguidade.” ‭‭Miqueias‬ ‭7:18-20‬

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Home office

Um dos maiores desafios da quarentena para as mulheres que têm filhos é conciliar a maternidade com o home office. Julyana revela que o segredo para realizar as tarefas em harmonia é estabelecer horários e um canal transparente de diálogo com as crianças.

“É preciso dizer: ‘A mamãe vai trabalhar de tal a tal hora. Depois, ela vai se dedicar inteiramente a você. Pode escolher a atividade que quiser para fazermos juntos, bom?’. Assim, a criança entende o que está acontecendo e aprende a respeitar a sua agenda, tendo a segurança de que terá um tempinho exclusivo com você para fazer uma atividade legal após o término do trabalho”, enfatiza.

Daniel Ferreira/Metrópoles
Segundo Julyana, o segredo para conciliar a maternidade e o home office é estabelecer horários e um canal de diálogo com as crianças

Outra dica é entreter os filhos com tarefas que demandem tempo, como pintar e organizar os brinquedos por cor.

“Uma das minhas filhas está adorando desenhar. Ela passa um bom período da tarde aperfeiçoando essa habilidade. Temos que aproveitar esse momento, também, para estimular as crianças a despertarem novos hobbies“, salienta.

Conflitos

Julyana realiza trabalhos como psicoterapeuta – agora, a distância. Durante o período de isolamento social, ela relata que a procura pelo serviço aumentou consideravelmente.

“As mães me questionam sobre como lidar com os filhos 24h por dia em casa. Muitas delas preenchiam a agenda dos pequenos com atividades extracurriculares e quase não os viam. Contavam, ainda, com o auxílio de babá e demais funcionárias. Neste momento, estão tendo que lidar com a convivência ininterrupta e sem ajuda.”

“É difícil… Assim como faço aqui em casa, indico a elas estabelecer uma nova rotina, não comparar os filhos – alguns lidam melhor com a situação do que outros e fazer comparações é cruel – e prestar atenção aos sinais de fragilidade dos pequenos”, pondera.

Segundo a educadora parental, também há muitos relatos de conflitos matrimoniais. Para ajudar mães e casais que enfrentam problemas durante a quarentena, Julyana começará, a partir de segunda-feira (20/04), a fazer lives reflexivas em seu perfil no Instagram, sempre às 16h.

Sete gestações

Ser mãe de sete nunca fez parte dos planos da psicoterapeuta, com formação também em engenharia civil. A conta foi fechando ao longo da vida. Julyana estava na faculdade, com 17 anos, quando engravidou pela primeira vez. O relacionamento com o pai do primogênito, batizado de Pedro, terminou anos depois do nascimento do bebê.

Quando o mais velho tinha 8 anos, Julyana se casou novamente. Da união, vieram Luís Felipe, hoje com 17 anos, e João Eduardo, de 13. O desejo de ter uma garotinha, no entanto, persistia – e fez o número de filhos dobrar.

Duas tentativas de fertilização depois, ficou grávida de trigêmeas. Três anos após o nascimento de Maria Carolina, Maria Eduarda e Maria Fernanda, que hoje têm 11 anos, o casal se separou.

Julyana, até então mãe de seis, conheceu Kleber Caiado, com quem é casada atualmente. “Ele adotou o pacote completo. Não tinha filhos e queria muito ser pai. Eu pensei: vamos lá. Aí veio a Maria Beatriz”, lembra. A caçula tem 4 anos.

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